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Transcrição | O Tempo e o Som - 009 - Rock

  • tiagosantos2545
  • 13 de mar.
  • 39 min de leitura

 

 

 

O Tempo e o Som - 009 – ROCK

 

Olá, dando nossas boas-vindas a todos vocês. Estamos aqui para mais um episódio do Tempo e o Som, que é produzido com recursos do Fundo do Apoio à Cultura, do Governo do Distrito Federal, do Programa do GDF, de Iniciativa Cultura, com a locução, pesquisa e roteiro de Thiago Santos e Gabriel Carneiro, a edição e sonoplastia de Miguel Ferreira, a produção executiva de Cíntia Magalhães, a arte visual e design de Gustavo Pozzobon e Guilherme Bittencourt, nossa assessoria de acessibilidade. Estamos aqui hoje para falar de um gênero que tem um pé no Brasil, mas tem um pé lá fora também.

 

Na globalização, acabou se tornando o sinal de uma juventude, um sintoma de uma juventude, uma música jovem, e depois, com o tempo, também se transformou na marca de uma época. Estamos falando do rock, do famoso rock and roll, não é mesmo, Thiago? Salve, salve, Gabriel. Olá, respeitável público.

 

É isso aí. O tema de hoje é rock and roll, e o bicho vai pegar aqui. Entrando, de fato, em onde começa esse rock, é muito difícil precisar exatamente o início dele.

 

Muita gente atribui a década de 1950, principalmente a gravação do Rock Around the Clock, do Bill Haley and his Comets, lá nos Estados Unidos, como o início do rock em si. Mas, de fato, o que a gente pode dizer é que esse rock vem de uma tradição mais antiga. Ele tem muita vinculação com a música negra norte-americana, a música que era cantada nas plantações, no Mississippi, e que estava muito vinculada ao uso de alguns recursos específicos.

 

Então, um canto triste, um canto que era sempre contemplativo daquele ambiente, geralmente um canto que estava dividido em uma escala pentatônica, uma escala de cinco notas, que dividiria a escala inteira. Então, é muito comum você ter esse tipo de sonoridade. E também o uso da blue note, a famosa blue note, que é basicamente uma nota triste.

 

É quando você está, tecnicamente, com uma harmonia maior e você faz uma nota da escala menor. E aquela nota, de repente, soa um pouco dissonante daquilo que está sendo tocado, mas que dá um caráter de tristeza àquela música que está acontecendo. Mas, bom, vocês sabem, eu sei, todo mundo sabe que esse rock vai se transformar muito, desde que ele surge, tendo como base esse blues.

 

Ele vai ganhar um caráter chamado rhythm and blues, que, hoje em dia, já se ressignificou, já virou outra coisa, uma sonoridade diferente daquela que tinha naquela época. Mas que, a partir da década de 50, começamos a ter algumas pessoas, tipo o radialista Alan Freed, usando o termo rock and roll para se referir a um tipo de rhythm and blues mais acelerado, mais marcado. E, conforme a década de 50 vai passando, esse nome vai começar a se tornar padrão para se falar desse tipo de rhythm and blues mais acelerado.

 

Então, muito marcado para a gente, aqui no Brasil, como referência sonora, com coisas como a música do Elvis Presley, esse rock um pouco mais tradicional, mas que tem diversos grandes nomes em torno de si, como o próprio Chubby Checker, o próprio Little Richard, Chuck Berry. São vários os músicos que remetem um pouco a esse rock um pouco mais tradicional. Mas ele também vai ter um outro caráter, vai ter um rock um pouco mais próximo do folk, que é muito marcado pela atuação do Bob Dylan, pela atuação da Joan Baez e tudo mais.

 

E, conforme o tempo vai passando, vão se criando os novos rocks dentro disso tudo. Então você começa a ter variações do rock psicodélico ao heavy metal, bandas como Led Zeppelin, bandas como Pink Floyd. Você tem uma diversidade gigantesca.

 

Talvez a maior, a mais conhecida banda de todos os tempos, que seriam os Beatles, também marcado como rock. Então você tem uma diversidade muito grande de bandas, de artistas tocando, e às vezes com sonoridades muito diferentes e todos eles enquadrados dentro dessa caixinha do rock. Então o que a gente queria começar falando era justamente isso.

 

A gente está falando de algo que é muito diverso, que talvez tenha um marco inicial ali na década de 1950, mas que vai ganhar diversas vertentes, diversas variações, tanto na música estrangeira quanto na música brasileira. E a gente vai tentar aqui fazer essa amálgama de toda essa diversidade sonora, começando aonde esse rock começa no Brasil e chegando até os dias atuais. E para falar um pouco sobre como esse rock começa, se inicia, como é que a gente tem o início dessa tradição no Brasil, convido o meu amigo Thiago Santos a ter a palavra.

 

Valeu, Gabriel. O rock vai surgindo de dentro do rhythm and blues. Era o rhythm and blues tocado de uma maneira mais acelerada e com uma marcação rítmica mais forte no segundo e no quarto tempo da música, que geralmente era dividido, o compasso era dividido em quatro tempos.

 

E o rhythm and blues também foi utilizando guitarras mais distorcidas, piano mais agressivo e tinha escala pentatônica, que já era característica do blues, como o Gabriel comentou, e depois ela vai ser adotada pelo rock. Uma coisa bacana que o Gabriel comentou também foi da blue note. A blue note é justamente uma nota que era uma herança africana.

 

Para tocá-la nos instrumentos ocidentais era preciso utilizar algumas técnicas. Tinha a técnica de bend, que é quando o guitarrista toca a nota e estica a corda, o que faz o som da nota mudar. E também tem o slide, que é quando ele usa uma espécie de capinha metálica em um dos dedos e desliza o dedo na corda também.

 

Isso ajuda a mudar um pouco o som e a atingir a nota que não era possível, de repente, atingir no instrumento ocidental. Essas são duas características interessantes do blues. Inclusive, esse blues e essa transição para o rock vão estar muito vinculados a uma transição tecnológica.

 

A invenção da guitarra elétrica vai ser algo muito importante, a substituição de instrumentos. Como o Thiago falou muito bem, os recursos sonoros que você vai usar, por exemplo, esse dedal que você usa para poder colocar na corda, para poder fazer com que a corda tenha um slide, um deslize da corda, mas também até desenvolvimento de outros instrumentos. Por exemplo, quando a guitarra elétrica surge, boa parte dos tocadores de banjo, que era a música mais tradicional norte-americana, vão perder seu emprego, porque eles não vão conseguir trabalhar tocando a guitarra, e os guitarristas vão chegar e substituir os tocadores de banjo.

 

Beleza. Enfim, o rock, como é que ele vai aparecer no Brasil? Também por volta de 55, e também associado a um filme chamado Sementes da Violência. Nos Estados Unidos, o rock fez sucesso e estourou justamente quando ele apareceu na trilha sonora desse filme.

 

Nos créditos de abertura do filme Sementes da Violência, tocava Rock Around the Clock, do Bill Halley. E, inclusive, esse filme fez bastante sucesso por aqui, e ele tratava justamente de uma juventude rebelde, desviada. Então, já começa aí também, desde o início, a associação do rock com juventude e com rebeldia também.

 

E aí, logo no início, no Brasil, vai surgir uma versão em inglês de Rock Around the Clock também, cantada pela Nora Ney. Um pouco depois, vão fazer a versão em português com a Heleninha Silveira, chamada Ronda das Horas. E essa vai ser uma característica desse primeiro momento do rock nacional.

 

As composições vão ser basicamente covers, versões em português, das músicas que já faziam sucesso lá fora. Em 1957, vai surgir a primeira música de rock composta no Brasil. Vai ser cantada pelo Cauby Peixoto, que era um artista do rádio na época.

 

Se chama Rock and Roll em Copacabana. A principal referência desse rock and roll inicial no Brasil era o rock and roll americano tradicional. Então, alguns artistas que vão surgir aqui dedicados ao rock.

 

O Tony Campelo, que era irmão da Celi Campelo, Demetrius, Ronnie Cord, Albert Pavão, Carlos Gonzaga, Sérgio Murilo. Aos poucos, no final da década de 50, vão começar a surgir os primeiros programas de rock and roll. A Rádio Nacional vai transmitir o Ritmos para a Juventude.

 

A Tupi tinha o Clube do Rock, com Carlos Imperial. Na Guanabara, o programa se chamava Os Brotos Comandam. A partir desses programas de rádio, o rock vai começar a ser introduzido nos ouvidos brasileiros.

 

É interessante lembrar que a Celi Campelo, na verdade, ela era irmã do Sérgio. Era Sérgio e Célia. Eles são dois irmãos de Taubaté.

 

E quando eles surgiram, foram descobertos para o sucesso e começaram a cantar rock, a gravadora deles pediu para que eles mudassem o nome. A Célia virou a Celi e o Sérgio virou o Tony. Tony Campelo e Celi Campelo.

 

Isso é um negócio que acontece muito na década de 1950, 1960. Você vai ver isso acontecendo bastante. Inclusive, não apenas em quem cantava rock, mas nos outros artistas brasileiros.

 

Você vai ter, por exemplo, o Dick Farney, que tinha o nome de Farnesio e ela acaba pegando o Dick Farney como nome. Você tem o Johnny Alf, que era João Alfredo. Então você tem essas aliterações anglófonas do nome, o que se associa muito claramente com esse processo de globalização um pouco americana que a gente vai ter no Brasil durante o período.

 

Então a associação que fazia parte da política da boa vizinhança americana, essa presença americana maior em termos culturais no Brasil, essa ampliação do espectro cultural americano para o Brasil, vai acabar resultando nessa adoção desse abrasileiramento de músicas norte-americanas e também uma vontade até dessa juventude de se associar com aquilo que ela via como algo enaltecido em filmes, algo que pudesse ser um padrão de conduta a ser seguido naquele momento. Bom, e aí em 59 a Celly vai estourar com o Estúpido Cupido, que era uma versão para Stupid Cupid do Neil Sedaka, ou seja, uma música americana. Em 60 vai vir um hit Banho de Lua, que era uma versão, só que de uma música italiana dessa vez.

 

E a Cellly vai se tornar a primeira ídola de massa do rock, com um forte esquema comercial. Ela vai ter uma boneca lançada pela Troll, vai ter roupas, jingles, vai ter um programa de TV também com seu irmão, Tony e Celly em hi-fi, vai participar de filmes do Mazzaropi, enfim. Também em 59 vai ser inaugurada a primeira gravadora nacional dedicada ao rock, ela se chama Yang, e vai durar dois anos, de 59 a 61, e vai gravar bastante gente.

 

Em 60 apareceu a Revista do Rock também, que durou até 74. Foi, enfim, um meio de comunicação impresso e específico, dedicado exclusivamente ao rock'n'roll. Também vale a pena chamar a atenção que no início dos 60 surgiram diversos grupos instrumentais tocando rock'n'roll, twist e surf music.

 

Bandas como The Jet Blacks, The Jordan e The Clevers, que depois viriam se tornar Os Incríveis. Nessa primeira fase, eu acho que o marco de encerramento dela talvez seja o casamento da Celly Campello por volta de 62, deu uma enfraquecida, enfim, era outro mundo, outra realidade, então ela acaba casando e tendo filhos, ela se afasta do show business, do rock, para cuidar da família. É claro que esse enfraquecimento, esse declínio, dessa primeira fase, vai durar até mais ou menos 63, 64, 65, que é quando a Jovem Guarda começa a surgir.

 

Bom, nesse primeiro bloco a gente vai ouvir Baby Santiago com a música Estou Louco, Cauby Peixoto com Rock'n'Roll em Copacabana, esse foi o primeiro rock composto no Brasil integralmente, música e letra, depois a gente vai ouvir o Betinho e seu conjunto com a música Enrolando Rock, e aí é interessante notar nessa música que até 60 o rock no Brasil tinha como referência ainda a Big Band do Bill Halle, então tocava esse rock com sanfona, com saxofone, baixo acústico, bateria, piano e guitarra, e essa música Enrolando Rock conta com todos esses instrumentos. E para fechar o bloco, Jair Alves com Rock Baião, revelando também que desde as suas primeiras fases o rock'n'roll era misturado com ritmos regionais, nesse caso o Baião. Você acabou de ouvir aqui no Tempo e o Som Jair Alves com Rock Baião, Betinho e seu conjunto com Enrolando Rock, antes Cauby Peixoto com Rock'n'Roll em Copacabana, e o primeiro do bloco foi Baby Santiago com Estou Louco.

 

A gente vai chegando na década de 1960, que é uma década bastante relevante para o rock, que é talvez o momento em que ele se dissemine mais e, de fato, chegue na casa das pessoas. Vale lembrar que na década de 1950 para a década de 1960, principalmente, a gente estava tendo uma modernização tecnológica do Brasil também. O Brasil vivia uma classe média tendo geladeira, tendo TV, tendo luz elétrica.

 

A televisão chega no Brasil em 1950, mas apenas em 1970 ela se torna o principal meio de comunicação brasileira. Então nesse período, entre 1950 e 1970, ela vai gradativamente ampliando o seu espectro e cada vez mais se tornando um mecanismo cultural importante. E é óbvio que nisso tudo o rock também entra.

 

Ele vai entrar com essa lógica também do consumo e essa lógica de você ter novas posses, algo que estava muito vinculado a esse capitalismo vigente no Brasil sob o raio de influência norte-americana numa época de Guerra Fria. Sendo assim, a gente vai ver isso tudo sendo manifestado dentro da música nacional e dentro do rock também, é claro. O rock como sendo uma importação americana, ele vai trazer bastante influência desse tipo, desse mecanismo cultural norte-americano para o Brasil.

 

Uma das questões é justamente você falar de automóveis, de carros, falar que você tinha o calhambeque, que você entrou na Rua Augusta 120 por hora, que você tem um automotor que representa uma posse que seja importante para conferir o status dentro daquela sociedade. Ao mesmo tempo, isso também vai revelar um rock que está mais associado a uma ideia de classe média brasileira. As pessoas mais pobres naquele momento não tinham ainda acesso a carro, a televisão e tudo mais.

 

E por mais que, muitas vezes, esses membros do rock não fossem de fato pessoas ricas, elas almejavam isso. Então, essa ideia de você almejar recursos, almejar dinheiro e falar sobre isso, vai estar muito presente na música brasileira. E, dentro disso tudo, uma grande geração, muito importante para a música brasileira e muito relevante, vai acabar aparecendo durante a década de 1960.

 

Então, a gente está falando do Roberto Carlos, que veio do Espírito Santo nos fins da década de 1950, chegou tentando ser cantor de Bossa Nova, que era aquilo que fazia sucesso na época, mas que depois vai acabar se tornando o grande nome da chamada Jovem Guarda Brasileira. A gente está falando de figuras como Erasmo Carlos, figuras como Wanderleia, figuras como Ronnie Vaughn e tantos outros músicos que compuseram essa Jovem Guarda, Jair Adriani também, e que fizeram parte desse grupo que ficou muito marcado midiaticamente pelo programa de televisão que apresentaram na TV Record durante a década de 1960, entre os anos de 1965 a 1968, e que teve uma grande disseminação, uma popularidade muito grande. Para você ter uma ideia, entre os anos de 1968 e os anos de 1983, o Roberto Carlos vai ser o artista mais vendido do Brasil em quase todos os anos, só não será no ano de 1973, quando o disco mais vendido do Brasil será o disco dos Secos e Molhados.

 

Então, o Roberto Carlos se torna uma grande figura midiática, importantíssimo para a música brasileira e, de fato, vai ser um indivíduo que vai capitanear essa geração da Jovem Guarda em torno dele. Apesar de que a gente tem diversos nomes muito importantes e que a gente vai mostrar aqui para vocês, é claro, que dão essa diversidade dessa Jovem Guarda. Agora, em geral, o que a gente pode falar sobre o repertório deles é que, muitas vezes, ainda existia essa tendência de recorrer muito a traduções.

 

Então, ainda se traduzia muita música americana, ainda se traduzia muita música italiana e se adequava ela aos parâmetros daquilo que é a música nacional. Agora, de fato, o rock que é criado nessa Jovem Guarda vai ser algo que vai marcar a época e vai ficar muito associado a esse período. Logo na sequência da década de 60, quando a gente tiver uma transição para a MPB, a gente já vai ver uma mudança em relação a esse período que existia antes.

 

A Jovem Guarda é importante falar também, eu acho interessante lembrar que ela também era conhecida como iê iê iê, porque, musicalmente, ela era referenciada naquela primeira fase dos Beatles, mais ou menos dos discos que saíram entre 63 e 65. O iê iê iê,, na verdade, é uma referência ao refrão da música She loves you, que ele fala She Loves you, Ye, Ye, Ye. Então, o iê iê iê,  era esse rock dançante, comercial e influenciado pelos Beatles.

 

E o iê iê iê,  foi importante porque ele ajudou a popularizar o rock no país, a torná-lo mais atraente para quem a princípio não gostava de rock. Outra coisa interessante também é que as letras da Jovem Guarda, o Gabriel já mencionou isso aí quando ele citou os carros, mas as letras da Jovem Guarda falavam de temas jovens, relativo a um Brasil mais urbano. Por isso, eles conseguiram abrir esse canal de comunicação com a juventude.

 

Se a gente for levar em consideração a primeira geração do rock, que falava de coisas mais etéreas, banho de lua, cupidos, a Jovem Guarda, não, já tratava de temas mais da nossa realidade, como a rebeldia da geração jovem também, que começava a ir despontar nessa época, justamente uma rebeldia geracional contra os seus pais. Era a primeira, enfim, aquela primeira instância família que o jovem começava a se rebelar. E aí, é claro, a Jovem Guarda, a partir do programa de televisão e do sucesso das músicas, popularizou comportamentos, gírias como Brasa, Mora, Broto, Carango, um estilo de vestir, os cabelos longos que vieram dos Beatles também fizeram muito sucesso na Jovem Guarda, as jaquetas, as calças, as bocas de sino.

 

A Wanderleia começava a usar as minissaias também, que foi um marco importante para o feminismo. Só que a Jovem Guarda, ela vai começar a ter um declínio no final dos anos 60 também, em 68, quando o próprio tropicalismo começa a ganhar força e o Roberto Carlos sai do programa, do programa Jovem Guarda. Isso vai dar uma enfraquecida no gênero musical em si.

 

É interessante a gente ver, isso está muito vinculado a uma questão política também. A gente teve a ditadura militar se iniciando em 1964, e por conta da ditadura militar você acaba tendo uma tentativa de ter uma canção mais politizada que fale um pouco mais das questões dos dilemas sociais, e essa Jovem Guarda começa a ser vista como algo alienado. Um processo até semelhante daquilo que aconteceu com a Bossa Nova, apesar de serem gêneros bem diferentes.

 

Visto como algo de classe média, que não falava dos dilemas sociais brasileiros, que falava apenas de consumo e tudo mais. Então os próprios membros da Jovem Guarda, Erasmo, Wanderlei, Roberto Carlos e tudo mais, vão acabar saindo pela tangente dessa estética jovem guardista para se tornarem pessoas um pouco mais alinhadas a essa MPB que vai vir na década de 1970. E a própria MPB, por sua vez, também vai trazer heranças muito grandes dessa aplicação do rock.

 

Então você vai começar a ter, ao mesmo tempo que você está tendo lá fora um rock que começa a ser um pouco mais psicodélico, você vai ter repercussões, reverberações dessa psicodelia também dentro da MPB brasileira vinculada a um rock nacional, o estabelecimento de um rock feito dentro do Brasil. Então a gente vai falar disso no próximo bloco um pouco mais forte, quando a gente entrar na década de 1970. Mas, sobre a década de 1960, a gente já vê reverberações disso.

 

Um exemplo, por exemplo, são as participações do Caetano e do Gil nos festivais, em que eles trouxeram a palco bandas de rock para tocar com eles, tanto Alegria, Alegria, quanto o Domingo do Parque. Então essa ideia de você ter uma obra de música popular brasileira que ao mesmo tempo se mistura a esse rock, ela vai começar a surgir na década de 1960, mas vai se tornando a mais palpável na década seguinte, que é a década de 1970. Então é longe da gente ver um rompimento tão grande de uma década em outra, a gente vê um processo contínuo de aprimoramento, de transformação dessa música, que vai acabar levando a essa identidade de uma década um pouco mais sintetizada em alguns movimentos musicais, mas sempre algo muito complexo e muito amplo.

 

É isso aí. E quando a gente fala que teve o enfraquecimento do movimento da Jovem Guarda ali no final dos anos 60, isso não significa afirmar que o ritmo parou de ser tocado, ou parou de influenciar outros tipos de música. Por exemplo, na década de 80, o iê-iê-iê, e na década de 70 também, o iê-iê-iê sobreviveu bastante no universo, entre aspas, da música brega.

 

Então Amado Batista, Evaldo Braga, Odair José, Reginaldo Rossi, misturavam iê-iê-iê com samba canção, por exemplo, música romântica. Nos anos 80, o grupo Titãs surgiu como Titãs do iê-iê-iê, depois que eles tiraram esse iê-iê-iê. O próprio Arnaldo Antunes, que era do Titãs nos anos 2000, lançou um disco chamado iê-iê-iê.

 

Se a gente voltar também na década de 90, tinha alguns artistas do Sul, Frank Jorge, Grafo Rea estilo harmônica, que utilizavam também o iê-iê-iê para produzir rock nos anos 90, mas com referências sessentistas ainda. Bom, então, sem mais delongas para ilustrar a cena do iê-iê-iê, a gente vai ouvir aqui no Tempo e o Som. Os Carecas, com Os Carecas São Demais, é uma versão dos Beatles, depois Jerry Adriani, com Doce Doce Amor, um dos maiores sucessos do Jerry Adriani, e essa música foi produzida pelo Raul Seixas, perdão, foi composta pelo Raul Seixas, que é produtor, que foi produtor de três discos do Jerry Adriani, inclusive essa música lembra as músicas do Raul Seixas, que também tocava o iê-iê-iê um pouco.

 

Roberto Carlos, com É Proibido Fumar, um clássico da Jovem Guarda, e também mostra um pouco de influência da surf music no som da Jovem Guarda, e por fim, a ternurinha Wanderleia, com Prova de Fogo. Você acabou de ouvir aqui no Tempo e o Som Wanderleia, a ternurinha, com Prova de Fogo, antes, o rei Roberto Carlos, com É Proibido Fumar, ainda antes, a segunda música do bloco, música cantada por Jerry Adriani, chamada Doce Doce Amor, lembrando como a composição do Raul Seixas, produzido pelo Raul Seixas, e Os Carecas, com Os Carecas São Demais, uma versão da música Hard Day's Night dos Beatles. E agora, chegando na década de 1970, a gente vai ver uma transformação bem grande desse rock.

 

Você não vai ver exatamente uma mesma, algo igual à Jovem Guarda que tinha sido feita na década de 60, e sim uma diversificação muito grande pelos subgêneros do rock que passam a existir internacionalmente e que vão dar resultado aqui no Brasil. E ao mesmo tempo, no Brasil, você está tendo um processo, que é um processo muito relevante, de transformação da própria canção brasileira. Você está tendo os artistas da MPB, como Gil, Caetano, Chico, Milton Nascimento, Danilo Lobo, André, que são pessoas que estão pensando em como se comunicar dentro de um momento de repressão.

 

Então, nesse ponto, muitas vezes o discurso é um discurso velado, com letras mais elaboradas, com letras mais complexas. Isso também acaba repercutindo dentro do rock nacional. Mesmo a obra de artistas que eram artistas muito vinculados a essa letra mais direta da Jovem Guarda, muito vinculada ao consumo, vão começar a ter uma letra um pouco mais reflexiva, mais contemplativa, um pouco mais complexa.

 

É o caso do Erasmo Carlos, que tem um ótimo disco na década de 70, Carlos Erasmo, que é excelente. É o caso do Roberto Carlos, é o caso da própria Wanderléa. Então, vão ser artistas da Jovem Guarda que, muitas vezes, a gente hoje associa como pessoas que só cantavam músicas naquele estilo jovem guardista, que, posteriormente, acabaram diversificando bastante a sua carreira, e se tornando artistas muito mais plurais.

 

Como eu disse anteriormente, ao mesmo tempo, a MPB também vai trazer essa influência desse rock. Então, nessa aproximação, talvez a banda que mais tenha se destacado em si, fazendo essa interface entre a MPB e o rock, sejam os Mutantes, que vão apelar bastante para a psicodelia, que vão apelar para a criação de novos instrumentos, sempre pensando em diversificar a sonoridade, em usar instrumentos diferentes, com sonoridades diferentes, para produzir um resultado diferente, e apelando para temáticas muito diversas. Não são mais aquelas temáticas que eram cantadas apenas na Jovem Guarda.

 

Vão falar sobre questões sentimentais, questões da vida. Sempre você vai ter algumas temáticas que vão aparecer internacionalmente durante a década de 70, que vão acabar aparecendo na música brasileira também. Então, é o caso, por exemplo, do uso de drogas.

 

Vai acabar aparecendo essa psicodelia vinculada ao uso de psicotrópicos. Vai acabar aparecendo na música brasileira. É o caso do misticismo também, que também vai se encontrar presente dentro da música brasileira.

 

E é o caso até também da afirmação de questões identitárias, como de questões raciais e tal, que também vão aparecer bastante na música brasileira nessa época. Em relação à questão do misticismo, talvez a figura mais emblemática disso seja o Raul Seixas, que vai fazer um diálogo com a Lester Crowley, que vai fazer e vai promover um diálogo com questões de disco voador, de alienígenas. Vai falar bastante sobre essa ideia das profecias, dos profetas, e que vai ser um indivíduo muito importante durante a década de 70.

 

E que não vai se limitar – e aí é ao contrário do que muitas vezes as pessoas pensam, que o Raul era uma pessoa limitada apenas a fazer um rock puro, simples. Era uma pessoa que muitas vezes fazia no meio de um disco um tango e depois um rock. Às vezes fazia uma música mais romântica, mais alinhada àquela estética da Jovem Guarda, mais tradicional.

 

E depois, no mesmo dia, fazia uma música mais psicodélica, uma coisa que lembrava mais o folk rock, aquele rock meio Bob Dylan e tal. Então ele sempre transitava por diversos rocks e talvez, por conta disso, tenha se tornado um indivíduo tão cultuado. Ele cultua essa imagem do místico em torno dele, principalmente nas parcerias dele com o Paulo Coelho, indo para esse lado místico, mas também em outras grandes músicas dele, tanto com o Claudio Roberto, que foi um grande parceiro dele, quanto até composições individuais dele, que acabam marcando, de fato, a música durante a década de 1970.

 

E ao mesmo tempo, artistas que a gente tinha como MPB, que é o caso, por exemplo, do Gil, vão gravar coisas como Back in Bahia, que é uma música totalmente rock and roll, inclusive uma versão de uma música em inglês, com uma letra sobre esse regresso depois de estar exilado durante a ditadura militar. Então o rock, de fato, nesse momento, ele se entranha dentro da música nacional, permeando diversos gêneros musicais e nos tornando mais restritos a um movimento específico. Vai ser o momento em que o rock vai se amalgamar mais com a música brasileira e, de fato, a gente vai vê-lo totalmente implicado na música brasileira, gerando subvariações de rock naturais do Brasil, como é o caso do rock rural, do Sai e Guarabira, Zé Rodrigues e tudo mais, e também de bandas que vão para uma pegada muito alinhada ao rock estrangeiro.

 

Então é o rock se tornando cada vez mais presente não apenas como um movimento específico, mas permeando a música de diversos artistas, faço também, sobre isso, destaque ao disco Milagre dos Peixes, em que o Milton Nascimento toca com um som imaginário que também tem uma pegada rock e é maravilhosa. Muito importante ressaltar isso, que os anos 70 eles são caracterizados por uma diversidade de estilos no rock, que também era um resultado natural do que estava acontecendo lá nos Estados Unidos. Os estilos foram se desdobrando em outros subgêneros e o rock vai se diversificando.

 

Então é isso, o Brasil dos anos 70 é marcado pelo rock and roll, pela folk music, pelo rock progressivo e até pelo hard rock. Talvez um dos elementos que fosse um ponto comum de tudo isso fosse justamente a contracultura. E o Raul Seixas, talvez tenha sido um dos principais artistas que soube traduzir os temas da contracultura para o contexto brasileiro.

 

A contracultura, de uma maneira geral, pode ser caracterizada como um conjunto de fenômenos que surgiram nos Estados Unidos e na Europa nos anos 60 e que compartilhavam a ideia de contestação aos valores culturais vigentes e de ruptura com padrões sociais, crítica ao sistema político-econômico. Dentre esses fenômenos estão os beatniks, os hippies, os movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos, os estudantes do março de 68 em Paris. Enfim, o Raul Seixas com o misticismo oriental dele de Guita, com a crítica aos valores burgueses em ouro de tolo, com o chamamento para desenvolver outro tipo de sociedade e de liberdade individual na sociedade alternativa, a liberdade sexual que ele pregava com a maçã, com o medo da chuva, tudo isso, o comportamento como ato político em Maluco Beleza, tudo isso fez o Raul talvez ser o principal tradutor dessa contracultura que estava emergindo lá fora aqui para o cenário brasileiro.

 

O Gabriel comentou também dos mutantes que fizeram essa transição. Eles vieram lá do tropicalismo, o tropicalismo já tinha aceitado a guitarra e um pouco o rock no seu caldeirão antropofágico, os mutantes nascem nesse contexto, depois dos dois primeiros discos, os mutantes vão passar por uma fase que vai caminhando um pouco mais para o rock mesmo, se a gente for pensar meio desligado, Jardim Elétrico e No País dos Baurets e os mutantes vão ser importantes também porque eles, depois desses três discos, vão começar a trilhar um caminho mais para o rock progressivo e vão ser também uma das primeiras bandas de rock progressivo no país. O que é o rock progressivo? É o rock que é um rock um pouco mais elaborado, sofisticado e que ele já traz elementos da música clássica, traz elementos do jazz para dentro do rock.

 

É o rock com status de arte. Os discos de rock progressivo, geralmente eles têm um conceito, um tema ali por trás. Pink Floyd é uma das grandes influências.

 

Aqui no Brasil, a gente vai ter o Terço, a Barca do Sol, o Som Nosso de Cada Dia, Recordando o Vale das Mações, como representante do rock progressivo. A gente falou então também do Raul Seixas, que era a interface desse rock com MPB, representante do rock and roll clássico também. O Raul tinha muita referência no Elvis Presley, a Rita ali também tocando rock and roll mais clássico, a Bolha, os Lobos.

 

Já no, o Gabriel comentou do rock rural também, do folk rock, Secos e Molhados, Sá Rodrigues e Guarabira, Almôndegas, Karma. Essa galera do folk rock, do rock rural, usava mais uma linguagem folclórica ou rural, utilizava mais violões nas músicas. Então era um rock um pouco mais acústico.

 

E tinha também o hard rock, no caso das máquinas do Made in Brazil, que era um rock and roll, só que um pouco mais agressivo, com guitarras mais agressivas, com vocal mais rasgado. O hard rock foi outra tendência que dominou nos anos 70 também. E o Secos e Molhados, como o Gabriel comentou no bloco anterior também, quando surgiu foi um fenômeno, não é Gabriel? Em 73 ele vendeu cerca de 800 mil cópias e também ajudou bastante a popularizar o rock and roll no Brasil.

 

Eles tinham aqueles diferenciais, tocavam folk music, MPB também, Secos e Molhados tinha essa interface com MPB. Eles musicavam as letras, eram baseadas em poemas, poemas modernistas do Vinícius de Moraes, Manoel Bandeira, Fernando Pessoas. E para além disso, tinha aquele vocal, vocalista, com uma voz potente, aquele timbre agudo e com uma facilidade para cantar em falsete, que chamam muita atenção.

 

O Ney Mato Grosso, além da performance e da maquiagem do Secos e Molhados. A performance do Ney Mato Grosso é a contracultura sem precisar falar em contracultura. Ele consegue sintetizar tudo aquilo que está no discurso contracultural apenas na performance dele.

 

Um homem com uma voz andrógina, você fica na dúvida se ela é feminina ou masculina, quando ouve a primeira vez, com uma vestimenta que também é cenográfica, se comportando com trejeitos que não eram associados ao tipo ideal masculino pelos valores mais conservadores. O Ney Mato Grosso e o Secos e Molhados vão trazer juntos uma estética contracultural, mesmo que ela não esteja presente exatamente nos discursos, por serem poemas anteriores e tudo mais. Já está ali presente na própria atitude, nas próprias atitudes deles.

 

Exato, Gabriel. E por fim a gente vai fechar aqui o bloco ouvindo Casa das Máquinas, representando um pouco o rock progressivo barra o hard rock. Depois, Sá Rodrigues e Guarabira, com Hoje Ainda É Dia de Rock, também como representantes do nosso rock rural.

 

Raul Seixas com Rock do Diabo. A gente estava conversando aqui dessa representação, desse misticismo, dessa associação do Diabo com o rock. Sempre estiveram presentes.

 

Seja lá no início, com o Blues, com aquela lenda do Robert Johnson, que teoricamente teria feito um pacto com o demônio numa encruzilhada e teria voltado tocando muito bem depois desse pacto com o demônio. Aqui no Brasil também a gente teve o Sérgio Murilo nos anos 50, final dos anos 50, início dos 60, cantando a música Lúcifer. E o Raul Seixas aparece agora também com Rock do Diabo.

 

E fechando o bloco, Rita Lee com Bruxa Amarela. Rita Lee na sua fase com a banda acompanhada pela banda Tutti Frutti e cantando uma versão da música Check Up, que foi composta pelo Paulo Coelho e pelo Raul Seixas. Você acabou de ouvir aqui no Tempo e o Som a grande Rita Lee com Bruxa Amarela.

 

É uma música que posteriormente apareceu com o nome de Check Up e no disco do Raul Seixas e que tinha essa primeira versão com esse nome, chamada Bruxa Amarela. Você viu o próprio Raul Seixas com Rock do Diabo. Também ouviu anteriormente Sá Rodrigues e Guarabira com Hoje Ainda É Dia de Rock e Casa das Máquinas com Quero Que Você Me Diga.

 

Chegamos então à década de 1980, uma década que a gente já começou a viver, né? Começa a lembrar ali um pouco da década de 80. Nós dois somos da década de 80. A gente já começa a ter algumas pequenas memórias desse período.

 

De fato, o que começa a acontecer é que durante a década de 1980, a música brasileira vai viver um momento de transformação também vinculada àquela questão política e à questão social que a gente mencionou anteriormente. A ditadura na década de 80 já não é uma ditadura tão rígida e nem tão potente quanto a gente tinha anteriormente, na década de 60 e 70. Não é tão repressora quanto a gente tinha antes.

 

Então o que acaba acontecendo é que você tem já a emergência de uma geração jovem que está ali com seus 20, 18, 20 anos e que em nenhum momento participou democraticamente do Brasil e que, de fato, não se vê representada por aquela tentativa tão forte de usar o subentendido nas palavras, de usar uma letra muito rebuscada e tudo mais. Então é uma geração que busca ser um pouco mais direta na sua fala e que busca manifestar suas vontades políticas diretamente, também querendo votar e tudo mais. Então, não à toa, a gente vai ter o movimento das diretas já, que vai estar muito associado ao rock dentro da década de 1980.

 

Essa ideia da representação de uma geração jovem com o rock começa a ficar muito associada ao momento. É o que o Arthur W. Harvey chama de brock ou brock, como vocês quiserem chamar. Essa ideia de você ter um rock ganhando nacionalidade, pegando discursos vinculados às questões nacionais e, de fato, representando uma geração com muita força.

 

Talvez essa primeira geração da década de 1980 que emerge nesse momento e que vai trazer ainda alguma vinculação com aquilo que a gente tinha antes, seja a geração do Lulu Santos, seja a geração do Lobão, seja a geração do Ritchie e de outros artistas que estão muito vinculados também à cena sonora jovem que estava acontecendo no Rio de Janeiro naquela época. Vale lembrar, e a gente não pode deixar de mencionar nesse caso, o Circo Voador, que era o palco que existia. Primeiro foi um palco que ficou montado nas areias da praia de Copacabana.

 

Depois ele chegou a ser até exportado quando a gente teve a Copa do México, em 1986. Levaram o Circo Voador para lá, levaram artistas para tocar lá. Depois voltou à praia de Copacabana e depois se reparou onde hoje está, até os dias de hoje, lá na Lapa, no Rio de Janeiro.

 

Inicialmente, era um local em que artistas, não apenas de rock, mas artistas jovens se manifestavam. Você tinha apresentações de teatro, apresentações de humor, de comédia, e você tinha também bandas tocando. Nesse contexto, acho que talvez o grupo que mais sintetiza essa amálgama cultural do Circo Voador seja a Blitz, que é um grupo que tem uma questão de encenação ali no meio.

 

Aquela liderança do Evandro Mesquita, que é um pouco ator, encena a questão, mas ao mesmo tempo também é músico. Você tem a participação da Regina Casé ali naquele grupo. Então, artistas que eram muitas vezes atores começam a participar também como músicos.

 

E essa miscelânea cultural leva uma banda que tem uma encenação, até certo ponto, na sua performance. Mas, ao mesmo tempo, você também está tendo grandes músicos surgindo e grandes bandas de estúdio, que vão ser muito importantes dentro dessa época. É o caso do grupo Os Carbonos, que era um grupo que gravava as músicas estrangeiras conforme... Como se fosse... Gravava as músicas estrangeiras e vendia os discos, às vezes com coletâneas de música estrangeira gravadas por eles.

 

E gravava, muitas vezes, tão parecido que as pessoas nem percebiam que era exatamente... Era uma nova versão. Achavam que era a versão original daquela música. Outro grupo que vai ser importante nesse momento é o The Famks, também, que depois acabou sendo batizado de Roupa Nova.

 

O Roupa Nova vai ter uma importância muito grande. Dizem, inclusive, eram todos músicos, grandes músicos de estúdio. Dizem, inclusive, que boa parte desses músicos teve uma participação na gravação do disco da Blitz, que vai ser relevante.

 

Mas, de fato, essa geração vai ficar muito marcada por uma presença maior do rock associada à juventude. Na segunda metade da década, a gente já vai ver isso bem mais manifesto nas bandas novas que vão surgir naquele momento. E, muitas vezes, vindas de diferentes locais do Brasil, mas com o discurso sempre de participação política, de uma música, de uma letra mais direta e de uma instrumentação, talvez, um pouco mais simples.

 

É o caso, por exemplo, Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, que vêm de Brasília, que vão representar essa juventude já nascida e crescida, ou até talvez não nascida, mas que passou a juventude na capital federal. Você vai ter, de São Paulo, bandas como Titãs. Com esse pé em Brasília e um pé no Rio de Janeiro, você vai ter ali o Paralamas do Sucesso.

 

Você vai ter no Rio de Janeiro o Barão Vermelho. Então, são bandas que representam do sul ao norte do Brasil, diferentes regiões, mas sempre com uma ideia de uma música mais simples, que represente as vontades da juventude, que tem uma vontade de participar politicamente, de ter uma participação democrática na democracia brasileira. E, talvez, o som dessa juventude que quer participar dessa democracia brasileira seja justamente o rock.

 

Então, por conta disso, é o momento em que o rock ganha um caráter muito forte de nacionalidade por refletir as questões próprias do Brasil. Bacana, Gabriel. E é isso, é importante lembrar que nessa década foi basicamente considerado o auge do rock nacional, porque, enfim, o rock teve bastante espaço nos meios de comunicação, teve bastante receptividade do público.

 

O rock era tocado na rádio, na TV, nas festas, nos shows. O Gabriel comentou do espaço para show das bandas novas que existia lá no Rio de Janeiro, Circo Voador. Mas, além disso, existia tanto no Rio quanto em São Paulo diversos outros espaços, sejam casas de shows ou discotecas, como Mistura Fina, Aeroanta, Rose bombom, Paulicéia Desvairada, Crepúsculo de Cubatão e Madame Satã.

 

E vale lembrar em Brasília também, já que a gente fala de Brasília, aqui o Galpãozinho, o famoso Galpãozinho, a Concha Acústica, que receberam bandas, as bandas do rock brasiliense, que eram locais. Hoje o Galpãozinho se chama, justamente, Teatro Renato Russo, em homenagem a esse rock brasiliense também, que se faz mais presente durante essa época. E além dessas casas menores, é bom lembrar que nos anos 80 começaram os primeiros festivais internacionais aqui no Brasil.

 

Então teve o primeiro Rock em Rio, teve o primeiro Hollywood Rock também em 88. Além disso, diversas rádios no Rio, Rádio Cidade, Transamérica e Jovem Pan em São Paulo, começaram a dar cada vez mais espaços para o ritmo, surgiram rádios exclusivamente dedicadas ao rock and roll, como a Rádio Fluminense, no Rio de Janeiro, que era conhecida como a Maldita, que deu muito suporte para as bandas novas que estavam começando, deu espaço, tocava as fitas demos da galera. O Gabriel já comentou aí, mas eu acho importante destacar também esses três núcleos urbanos que foram cenários do B-Rock 80.

 

O Rio de Janeiro, que tinha uma sonoridade de um rock mais praiano, referenciado no rock and roll tradicional e no ska. Então a gente tem o Barão Vermelho, que tinha muita influência do blues, o João Penca, os Miquinhos Amestrados e o Léo Jaime, que tinham bastante influência do Rockabilly, a Blitz, o Paralamas também, que tinha essa interface com o ska de São Paulo. Já vem uma vertente mais dark de New Wave e do Tecnopop, do pós-punk, com maior uso de sintetizadores.

 

Por exemplo, Gangue 90, Magazine, que era do Kid Vinil, que lançou Eu Sou Boy, Tique-Tique Nervoso. Tinha também o Agentss, Azul 29, Ira, Voluntários da Pátria. Em São Paulo também tinha o RPM, que se destacava justamente pelo emprego dos sintetizadores em seu som.

 

Depois já apareceu os Titãs, o Traja Rigor, também em São Paulo. Em Brasília, o rock era mais influenciado pelo punk, pelo post-punk e pelo garage rock. E aí, como o Gabriel citou era um legião urbana, o Capital, a Plebe Rude.

 

E além disso, da Bahia apareceu Camisa de Vênus e do Sul, os principais nomes ali são Engenheiros do Havaí e o Nenhum de Nós. A New Wave, que é uma das principais ritmos que influencia o rock dos anos 80, ela é um desdobramento do punk ali. Ela é um punk, que na verdade é um pouco mais sofisticado, com um pouco mais que os quatro acordes que eram a base do punk.

 

Já misturavam outras influências ali no Caldeirão. Além do punk, se tocava também disco, reggae, funk, dentro da New Wave, foram adotados outros instrumentos, como teclados, saxofones e, principalmente, sintetizadores. Então a New Wave, ela teve uma força grande, uma influência grande dentro do brock dos anos 80.

 

Uma coisa interessante, e eu acho muito importante você fazer essa vinculação com todos os movimentos musicais que estavam acontecendo internacionalmente no rock, que a gente vê, manifesta, é claro, dentro da música brasileira, é também as temáticas de vivência que as pessoas tinham na década de 80 e também vão aparecer refletidas na vivência desses músicos brasileiros na década de 80. É uma geração que viu, por exemplo, grandes ídolos morrerem de AIDS, que era algo que estava acontecendo internacionalmente. Então a gente viu Cazuza morrer de AIDS praticamente na frente da TV, fazendo o show do Fantástico e tudo, o Bem Mago e tudo mais.

 

Viu Renato Russo morrer de AIDS já na década de 1990, mas ainda como um tributário nessa década de 1980. Na década de 80, esse era um dilema muito importante e até o dilema da sexualidade, da homossexualidade vinculada à questão da AIDS. Cria-se uma vinculação de que a AIDS é um câncer gay e tudo mais e a gente vai ver essa questão presente e manifesta dentro do rock brasileiro na década de 1980 e 90.

 

Essas bandas vão acabar carregando o peso desse processo social que a gente vai ver dentro desse momento que acaba associando uma questão de sexualidade a uma questão de saúde, a questão do uso de drogas também, a questão da droga que aflige a juventude. Era algo que estava muito presente dentro dos discursos estrangeiros internacionalmente no mundo. Ao mesmo tempo, a questão da sexualidade e da AIDS também vai estar presente e vai acabar aparecendo na vida, na trajetória dessas bandas brasileiras.

 

E ao mesmo tempo, obviamente, a questão do final da ditadura e da redemocratização do Brasil que acontece no final da década de 1980 e que vai acabar gerando repercussões nas décadas posteriores. É isso aí. E agora, para ilustrar os sons dos anos 1980, a gente vai ouvir uns e outros com Carta aos Missionários, Blitz com Weekend, depois Tóquio com Garota de Berlim.

 

O Tóquio vem representando um pouco o punk rock que também surgiu no final da década de 1970 nas periferias de São Paulo, com bandas como Olho Seco, Cólera, Inocentes, Ratos de Porão. Ele era caracterizado justamente pelo som agressivo, acelerado, de poucos acordes, com letras politizadas e que tinham como referência contra a cultura dos anos 1980. Depois, Paralamas do Sucesso com Alagados e Legião Urbana com 1965.

 

Você ouviu agora, no Tempo e o Som, Legião Urbana com 1965, antes Paralamas do Sucesso com Alagados, Tóquio com Garota de Berlim, da segunda do bloco foi Blitz, cantando Weekend, e primeira, abrindo o bloco, uns e outros com Carta aos Missionários. E chegamos, finalmente, à década de 1990, uma década que a gente viveu bem, né, Tiagueira? A gente viveu ainda resquícios da década de 1980, então as bandas que a gente citou que estavam presentes na década de 1980, como Paralamas, Titãs, Legião Urbana, ainda estavam presentes na década de 1990, mas você vai ter uma diversificação da música brasileira durante o período. Vale lembrar também que esse é um período em que a gente vai ter uma mudança de tecnologia, de mídia, que vai ser muito relevante para a música brasileira.

 

Então, a gente estava falando sobre, por exemplo, músicas sendo feitas para vinil, então os discos, por exemplo, estarem presentes com 12 faixas em cada lado, desculpa, 6 faixas em cada lado, totalizando 12, que é o esperado no disco de vinil. E com o advento do CD, já que se torna mais presente no Brasil durante a década de 90, o que você vai começar a ter vão ser discos muito grandes, as pessoas querendo ocupar aquela mídia inteira, né, fazer aquele espaço todo ser preenchido e tudo mais. Então, nisso, os discos vão acabar ficando mais longos, vão acabar ficando maiores.

 

Você vai ter álbuns que vão ganhar tamanho, vão ganhar duração ali, muitas músicas sendo colocadas, muitas vezes músicas também visando serem tocadas na rádio posteriormente. Então, por exemplo, um disco que é importante, é o disco da Afrociberdelia, do Chico Sais na São Zumbi, vai ser um disco com 23 músicas, se eu não me engano, e que no final você vai ter remixes de Maracatu Atômico, que era a música de trabalho do disco, para serem tocadas nas rádios, para poder tocar nas pistas de dança e tudo mais. Então já se lançavam os discos tentando preencher todo aquele espaço que estava ali presente.

 

E o CD se torna extremamente relevante. Com isso também, esse lance de você conseguir levar o disco com você e ouvir em diferentes lugares. Então você vai ter o discman, as pessoas vão conseguir levar pra algum lugar pra poder ouvir o disco inteiro ali em si.

 

Então a música se torna mais portátil e o consume de CD se torna a certo ponto um fetiche, assim como era o costume de vinil anteriormente. Essa mudança tecnológica vai reverberar na duração dos discos, mas você vai ter uma outra mudança tecnológica que vai ser muito relevante, que vai ser a presença da MTV, a famosa MTV aqui no Brasil, que ela surge, claro que ela é afiliada à MTV norte-americana, mas que vai ter uma gestão nacional daquilo. Anteriormente, a MTV vai ser muito importante para poder disseminar o videoclipe no Brasil.

 

O videoclipe basicamente não era, não existia no Brasil. O que a gente tinha anteriormente eram clipes que muitas vezes eram feitos pro Fantástico e que tocavam no programa Fantástico da TV Globo e que eram clipes de uma música que tocava durante o final de semana, a música que estava fazendo sucesso, uma música da Clara Nunes, do Roberto Ribeiro, do Raul Seixas, ou qualquer coisa desse tipo, mas que eram clipes pontuais vinculados a programas de TV que iriam passar naquele programa de TV. Só que na MTV o que você começa a ter é programas feitos para o clipe.

 

O programa todo gira em torno dos clipes musicais feitos para aquilo. E você começa a ter uma produção musical em torno daquele clipe que vai ser muito relevante e que vai suprir uma lacuna que vai estar importante dentro do audiovisual brasileiro, porque durante o governo Collor, o Collor havia extinguido a Embrafilmes, que é a empresa brasileira de cinemas que a gente tinha, que basicamente investia dentro da produção audiovisual brasileira. Você teve um hiato de produção audiovisual muito grande, os diretores que estavam surgindo, estavam aparecendo, não tinham mais onde trabalhar, e vão trabalhando em dois nichos muito grandes.

 

O primeiro dos nichos vai ser a publicidade e o outro dos nichos vai ser os videoclipes. Então você vai ter uma publicidade muito boa brasileira, porque eram artistas, às vezes, muito qualificados, que estavam treinados e estudando para poder fazer cinema e que vão acabar indo tanto para propaganda quanto para os videoclipes. Então, no caso de artistas famosos brasileiros, Fernando Meirelles, por exemplo, vai ser alguém que vai estar no mercado publicitário, Andrucha Waddinton vai dirigir videoclipes, a gente vai ter... Diversos videoclipes vão ser muito importantes, você vai ter o Visual Music Brasil, que são os concursos de videoclipes, e as bandas começam a pensar, principalmente as bandas do rock brasileiro, começam a pensar bastante em participar desse filão de mercado e a fazer clipes das suas músicas.

 

Então tem vários clipes que são muito conhecidos, feitos por essas bandas, que acabaram se tornando disseminados dentro da cultura popular daquele momento. As pessoas tinham na MTV o Top 10, em que você tinha os videoclipes mais votados do dia para serem passados naquele dia, e praticamente toda semana saia um clipe novo, de uma música nova, que muitas vezes você nem conhecia, mas que o clipe te atraía a ouvir a música. Então, essa integração audiovisual vai ser muito importante e reverberando, inclusive, até no cinema.

 

É o caso, por exemplo, do clipe da Minha Alma, do Rapa. Essa música, Minha Alma, do Rapa, teve um clipe feito e dirigido pelo Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus, e pela Kátia Lund, co-diretora do filme Cidade de Deus. E eles, utilizando atores do grupo de teatro do Rio de Janeiro, chamado Nós do Morro, que trabalhava com atores da favela.

 

E ali você tem meio que um laboratório para aquilo que posteriormente, no ano de 2002, veio a ser Cidade de Deus. Vários artistas que estavam no clipe vão acabar aparecendo no filme, o autor do livro Cidade de Deus, que baseou o filme, dirigiu o clipe, e a diretora do clipe também vai aparecer como co-diretora do filme. Então, a mídia visual, o videoclipe, se torna algo muito relevante na música brasileira e vai estar muito presente, vinculado ao Rapa.

 

Junto com isso, claro que você vai ter também uma transformação geracional desse rock que vai estar aparecendo. Se aquele rock anterior estava muito vinculado à New Wave, estava muito vinculado ao punk e tudo mais, nesse rock que vai surgir na década de 90 e vai aparecer também nos anos 2000, você vai ter cada vez mais uma transição rítmica e uma mistura com os ritmos nacionais que já estavam estabelecidos. E até com ritmos estrangeiros também.

 

Então você vai ter Skank, por exemplo, que estabelece um diálogo com reggae, com ska. Você vai ter Planete R.E.M.P., que estabelece um diálogo com rap. Você vai ter o Rapa, por exemplo, que também vai ter um diálogo interessante com rap.

 

Você vai ter bandas como Cambio Negro, que também vai ter um diálogo com rap. Mas também uma transformação daquelas próprias bandas que vocês já viam de antes, que também vão tentar estabelecer esse diálogo. Talvez dentro desse cenário tão diverso de integração de gêneros musicais diferentes, e aí a gente poderia citar muitos, por exemplo, o Raimundos, que misturava com o Porró, entre outros.

 

Mas talvez dentro desse processo todo, se destaca até os dias atuais, o movimento Manguebeat, que foi encabeçado pelo Mundo Livre S.A. e pelo Chico Science Nação Zumbi, mas que teve como sua banda de maior projeção obviamente o Chico Sainz Nação Zumbi. Tanto o disco da Lama Ao Caos, quanto o Afrociberdelia, que são discos feitos quando o Chico ainda era vivo, acabam deixando uma marca muito grande dentro da música brasileira, tendo frases sendo usadas até hoje nas músicas, como eu me organizando posso desorganizar, da lama ao caos, é uma cerveja antes do almoço, é muito bom pra ficar pensando melhor. Tem várias, né? Várias frases que acabaram ficando consagradas ao tom da música do Chico Sainz Nação Zumbi.

 

Mas mais do que falar sobre as frases, eu acho interessante a gente falar um pouco sobre o conceito da questão, que é o conceito de você misturar uma regionalidade com uma internacionalidade. É você pegar uma música que vinha de uma concepção regional de música, uma música que ainda não tinha sido nacionalizada popularmente, mercantilizada a ponto das pessoas poderem comprar, como é o caso do Maracatu, e misturar ela com rock, com uma pegada de b-boy também, com tambores de Maracatu com muita força, e tudo isso sendo feito em torno de um conceito, né? Existe o manifesto do Mangue Beach, escrito pelo Fred 04, do Mundo Livre S.A. Quer dizer, conceitualmente, se conceber uma mistura sonora que contempla a regionalidade e as questões particulares, a vivência do Recife com as questões que têm a ver com a internacionalização. É o que o Chico Sainz chamava de caranguejos com cérebro.

 

E é interessante notar, né? Particularmente, por exemplo, a primeira vez que eu ouvi falar em Maracatu foi através do rock do Chico Sainz. Mesmo morando no Brasil, tendo acesso à cultura ali de um estado próximo aqui de onde a gente está, eu não conhecia o ritmo, não tinha tanta evidência pra mim em meios de comunicação e nem nada, né? E o rock do Chico Sainz acabou me levando pra conhecer esse gênero. É, a gente pode até falar assim, o Maracatu já existia na música brasileira? Já existia.

 

O Luiz Gonzaga, no disco Canaã, ele grava dois Maracatus do Gonzaguinha, ele grava Erva Rasteira e grava Festa, que são Maracatus importantes. O Alceu Valença chegou a gravar alguns Maracatus, o Jackson do Pandeiro chegou a gravar, mas em nenhum momento ele tinha sido protagonista de um grupo que tinha tido grande sucesso. Mesmo nas gravações do Luiz Gonzaga, ele se destacou mais como cantor de baião, de shots e não necessariamente de Maracatus, não é mesmo? Inclusive, só pra ilustrar isso, eu lembro que a primeira vez que um colega meu falou houve isso aqui, Chico Science na São Zumbi, ele mistura rock com axé por conta da percussão.

 

A gente não tinha aquela referência do Maracatu depois que foi ter esse insight. Não, na verdade, são ritmos regionais, de Pernambuco e tudo. Mas a princípio, a referência que a gente teve naquela época foi justamente do axé.

 

Então isso é importante pra gente também enxergar, que é o Brasil conhecendo o Brasil. A gente enxergar que havia uma classe média, uma classe média alta brasileira que conseguia consumir, tinha muito acesso a questões a rocks estrangeiros, a esse rock que era feito no Brasil nas zonas urbanas de maior visibilidade e tudo mais, mas que não tinha um conhecimento sobre as regionalidades do Brasil. E, ao promover esse encontro entre regionalidades e um rock que é mais internacional, de fato você tem uma nova geração sendo introduzida pra ritmos que ela desconhecia anteriormente.

 

Então, de fato, é o Brasil de classe média, o Brasil mais urbano, conhecendo o Brasil profundo, mesmo que essas manifestações musicais tenham sido só uma ponte pra que isso acabasse ocorrendo. Enfatizando também que isso aconteceu comigo também, com Baião, com Forró, eu comecei a prestar mais atenção a partir do Raimundos. Eu conheci Raimundos e a partir dali que eu fui ouvindo Luiz Gonzaga e outros temas também.

 

Então, importante esse papel do rock. Bom, ao contrário dos anos 80 e que o rock estava em evidência nos meios de comunicação, nos anos 90, embora existisse MTV e tudo, o rock perdeu um pouco de protagonismo na mídia. Gêneros como axé, sertanejo, pagode, passaram a ter uma maior atenção.

 

O rock ainda continuou importante, sendo responsável por boas vendagens e aprofundando fusões, mas ele já não era mais hegemônico na mídia. Além da MTV, eu queria chamar atenção para os festivais de rock nos anos 90. Eles se consolidaram no país.

 

O Rock in Rio teve a sua segunda edição e o Hollywood Rock, principalmente, durante os anos 90, ele vai acontecer por seis anos, tanto no Rio quanto em São Paulo. Isso além dos festivais menores independentes, como abriu para o rock em Recife, o Junta Tribo, salve engano em São Paulo, o Superdemo era no Rio. Uma outra coisa que o Gabriel comentou e que é interessante é a questão da mídia, do CD que chegou nos anos 90, só que aqui no Brasil o CD chega mais ou menos em meados da década de 90.

 

Então as bandas dos anos 90 que queriam mostrar seu trabalho, fazer as primeiras gravações, mostrar para o público e para as gravadoras, elas, na verdade, gravavam ainda muito em fita cassete. Então, nos anos 90, existe uma proliferação de fitas demo, que a gente chamava aqui para divulgar o som dessas bandas. Demo de demonstração.

 

É claro que tem o trocadilho com o demo do rock and roll também, não deixa algum gaiato na hora de dar esse nome, aproveitou o trocadilho. Depois, as fitas demo vão virar o CD's demo também, já para o final dos anos 90, mas teve essa transição. A banda gravava os sons, gravava em uma fita cassete, que era mais baratinho, gravava 4, 5 músicas, passava para as gravadoras, passava para o público, isso era super comercializado nos shows e também chegava nas gravadoras.

 

Sobre as fusões que o Gabriel comentou, ele falou bem do Raimundos, que misturava com o forró, e também do movimento Mangue Beach, eu queria só chamar a atenção do Sepultura também, que era uma banda de heavy metal nos anos 80, mas que nos anos 90, aproveitando toda essa onda de fusões, misturou tanto heavy metal com o rap, algumas músicas que eles fizeram com Pavilhão 9, e também misturaram músicas com percussão brasileira. Tanto com percussão indígena, aproveitando o canto dos xavantes, percussão dos xavantes, quanto também com os tambores do Carlinho Brau e das tradições afro-brasileiras que existiam lá na Bahia. Isso é só para ilustrar como as fusões caracterizaram bem o rock dos anos 90, inclusive adentrando até o metal, que salvo engano, é um espaço muito pouco afeito a misturas e outros gêneros que vêm de fora.

 

Muito bem lembrada essa menção ao Sepultura, que tem que ser exaltado, talvez das bandas do rock nacional seja aquela que tem mais sucesso internacionalmente. A gravação com o Carlinhos Brau no disco Roots vai ser importantíssima, principalmente em Rata Marrata, para marcar essa participação, mas ao mesmo tempo, boa parte dessa juventude que consumia rock tinha uma certa birra com essa música que era feita por essas pessoas, pelo Carlinhos Brau e tudo mais. Então é notório aquele episódio do Carlinhos Brau tomando garrafada d'água no Rock in Rio.

 

Foi algo muito, muito relevante. Mas ao mesmo tempo, esse mesmo Carlinhos Brau gravou com o Sepultura no álbum Roots, que é um dos álbuns mais importantes de uma banda de rock bem pesada. O que mostra, até certo ponto, como a geração urbana da década de 90 tinha um certo preconceito com essa música que era uma música mais regional.

 

Talvez a busca dos artistas de rock por fazer essa interface realmente tenha facilitado essa conexão e tenha ajudado a romper um pouco com esse ciclo mais preconceituoso sobre a música brasileira. E representando os anos 90, a gente vai ouvir aqui as fusões de Raimundos com Nega e Jurema, Chico Sainz com A Praieira e Mundo Livre com Mang Beats e, finalizando o bloco, os rocks de Charlie Brown Jr. com Não Deixo o Mar Te Engolir e o Rapa com O Que Sobrou do Céu. É isso aí, pessoal.

 

Só agradecendo a audiência durante todos esses programas. Esse é nosso último programa. Nós gravamos diversos outros gêneros brasileiros.

 

Quem tiver curiosidade, basta acessar o Sound Cloud da Rádio Eixo e ouvir os outros gêneros lá. Lembrando que o Tempo e o Som foi produzido e patrocinado com recursos e com apoio do Fundo de Apoio à Cultura, o FACDF. Eu sou o Thiago Santos.

 

Me despeço aqui com um agradecimento e saudações. Muito obrigado a todos vocês. Foi um prazer conviver com vocês nesse período.

 

Um prazer fazer parte desse programa. Graças ao meu querido Thiago Santos, esse programa foi pra frente, foi feito. Ele que mobiliza todo o negócio para que isso tenha acontecido.

 

Espero que vocês gostem do programa. Busquem ouvir cada vez mais as diferentes vertentes da música que existem. Conhecer cada vez mais que essa arte representa bastante do nosso tempo.

 

Deixo um abraço para todos. Meu nome é Gabriel Carneiro. Muito obrigado e até a próxima.

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