Transcrição | O Tempo e o Som - 007 - Forró
- tiagosantos2545
- 14 de fev.
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O Tempo e o Som - 007 - Forró
Senhoras e senhores, forrozeiros e forrozeiras, sejam muito bem-vindos ao programa O Tempo e o Som, esse programa que é produzido com recursos do Fundo de Apoio à Cultura, o FAC, aqui do Distrito Federal, e de acordo com o programa do GDF, da Lei de Incentivo à Cultura. Tem a locução, pesquisa e roteiro de Gabriel Carneiro e Thiago Santos, a edição sonoplastia de Miguel Ferreira, a produção executiva de Cíntia Magalhães, o design e arte visual de Gustavo Pozzobon e assessoria de acessibilidade de Guilherme Bittencourt. Thiago, é um prazer falar sobre esse tema hoje, né? Salve, salve, Gabriel! Salve, salve, ouvintes! Olha, eu já vou começar entregando aqui que eu já falei no programa de choro que o Gabriel, ele tocava pandeiro e também tocava bandolim um pouco, né? Mas eu já vi o Gabriel tocar muito forró também, na zabumba, já dancei muito também, é o som aí do pé de serra do Gabriel, né, Gabriel? Pois é, cara, você sabe que pra mim tem um valor afetivo muito grande? Eu sinto até uma sinestesia, assim, eu sinto o cheiro de poeira levantando do chão, assim, quando eu ouço forró.
Já toquei muito, gosto muito e forró pra mim é uma honra poder falar. Agora, é um trabalho hercúleo porque a gente, preparando esse roteiro pra hoje, a gente viu as dificuldades que é a gente conseguir condensar todo o forró dentro de um só programa. Todas as pessoas que a gente quer citar, todas as músicas que a gente quer mostrar vai ser um trabalho gigantesco aqui fazer essa síntese aqui pra vocês.
Mas eu espero que a gente consiga. Até porque forró, né, Gabriel, é um gênero que engloba diversos ritmos, né? Perfeitamente. O termo forró é sempre um termo que as pessoas têm dificuldade de entender de fato.
Ele quer dizer um ritmo ou ele quer dizer um gênero musical como um todo? E, na verdade, o termo forró ele é ambos, até certo ponto. O gênero forró, ele é surgido da palavra forrobodó, uma corruptela da palavra forrobodó, que diz respeito a uma festa, as festas que aconteciam no sertão do Nordeste Brasileiro, onde se tocavam diversos ritmos diferentes, muitas vezes em um caráter instrumental, sem pensar necessariamente numa divisão entre uma faixa e outra, pras pessoas poderem dançar dentro do contexto daquilo que o Frederico Pernambucano de Mello chama de a civilização do coro, aquele contexto do cultivo de gado no sertão do Nordeste Brasileiro, em que você tem o manejo daquele animal sendo muito relacionado à produção, e essa produção também sendo relacionada às festividades que aconteciam. Então, nesse contexto, surgem essas festas, estabelecem-se essas festas chamadas forró, que vão estar muito presentes no sertão do Nordeste Brasileiro, e que apenas posteriormente vão se difundir e chegar de fato ao sul, às cidades do Sudeste Brasileiro, às grandes cidades do Brasil.
É isso aí, acho que é importante também comentar algumas referências anteriores do forró, ou seja, da formação do forró. Então, os repentistas, que faziam os desafios no Nordeste, as bandas de pífanos, que já eram muito comuns, as próprias quadrilhas que, enfim, desfilavam ali na frente de São João, podem ser consideradas referências para a formação do forró. Inclusive, tiveram alguns momentos anteriores à Luiz Gonzaga em que a música do Nordeste foi protagonista no Sudeste e acabou sendo transmitida como música popular pelos principais meios de comunicação da época, né, Gabriel? Teve 1910, com o Catulo da Paixão Cearense... Pois é, é uma época, o início do século XX, em que a perspectiva de sertão e de Nordeste é uma perspectiva de brasilidade.
Então, pensa-se muito no que é a síntese do Brasil, de que maneira esse país poderia ser sintetizado culturalmente por aquele tipo ideal brasileiro. Isso seria um tipo miscigenado que teria no sertão, no interior do Brasil, e, até certo ponto, pudesse representar toda a diversidade étnica e cultural brasileira nesse homem interiorano que foi cultivar o gado no sertão. Então, uma ideia muito de bravura do indivíduo sertanejo que vai viver ao redor daquelas intempéries que existem no sertão nordeste brasileiro.
Então, nesse contexto, estabelece-se a ideia de sertanejo como uma ideia de brasilidade. E, nisso, várias pessoas, inclusive do sul, do centro-sul do Brasil, vão começar a usar termos indígenas, termos que são vinculados a esses rincões do Brasil dentro das suas formações musicais. Então, o próprio Pixinguinha compôs grupos, tipo o Grupo dos Tangarás, o Grupo dos Caxangás, e músicos que são vinculados à cultura nordestina começam a aparecer com muita força no início do século.
Entre eles, o Cartulo da Paixão Cearense, que você falou, entre eles o João Pernambuco, que você falou, entre eles o Manézinho Araújo, e outros músicos que são relacionados a essa ideia, a esse ideal de sertanejo, de homem desbravador do Brasil, que estava muito bem estabelecida dentro do período. É isso aí. E depois do Cartulo, em 1910, foram aparecer, lá por 1925, os Turunas da Mauricéia, que estouraram no carnaval de 1928 com a embolada Pinhão, e, nos anos 40, vai aparecer já o Gonzaga, né? O Luiz Gonzaga, ele é do interior de Pernambuco, né, Gabriel? É da cidade de Exu? Perfeito.
O Luiz Gonzaga é da cidade de Exu, do interior de Pernambuco, e é um indivíduo que tem uma trajetória que se confunde com a própria ideia do que é o sertão. Um indivíduo que tem que sair do Nordeste por conta de uma querela, né, de, de repente, se envolver dentro de uma disputa, né? Existem várias versões dessa disputa. O Luiz Gonzaga, em diversos momentos da carreira dele, falou que, na verdade, ah, ele tinha se metido com a mulher de outro homem, mas diz também que, na verdade, ele se deu não a matar uma pessoa e coisas desse tipo.
Mas o ponto importante é que, jurado de morte ou envolvido dentro de uma disputa familiar, ele acaba ingressando no Exército Brasileiro, vai rodar o Brasil e vai do sertão do Nordeste Brasileiro indo parar dentro da cidade do Rio de Janeiro. Vai lembrar que ele já sai de lá sanfoneiro, só que ele sai de lá um sanfoneiro não letrado, digamos que não tinha um estudo formal de música, de leitura, de acordes, coisas desse tipo. Uma pessoa que era um músico intuitivo, que tocava dentro daqueles forrós, que tinha a musicalidade dentro dele, mas que não tinha um estudo formal daquilo.
Então, ao ingressar no Exército, ele vai aprender bastante de música, formalmente falando, até parar na cidade do Rio de Janeiro, onde a praxe do sanfoneiro não era tocar forró. A praxe do sanfoneiro era tocar valsas, mazurcas, polcas, escotes, outros gêneros musicais e outros ritmos que estavam muito vinculados à vivência carioca dos regionais, inclusive. Tem grandes sanfoneiros que são vinculados aos regionais de choro.
É o caso do Chiquinho do Acordeon, é o caso do Orlando Silveira também. Então, são pessoas que têm uma grande relevância e que são sanfoneiros. E o sanfoneiro não tocava forró.
Essa associação entre forró e sanfona se dá muito em torno desse estabelecimento da figura do Luiz Gonzaga. Isso aí, como o Gabriel falou, quando o Luiz Gonzaga chega lá no Rio, ele vai tocar onde? Na zona do Mangue ali, que era uma zona portuária. Era frequentada muito por marinheiros, pelas damas da noite.
Isso tudo ele ia tocando na rua, depois em bares, cabarés, gafieiras. E nessa época ele tocava lá no Mangue essa música instrumental, choros, mazurcas, valsas. Inclusive as primeiras gravações deles, até meados da década de 40 ali, vão ser só gravações basicamente instrumentais.
Inclusive, quando ele aparece para o público e ganha algum destaque, antes de começar a gravar, é justamente no programa de calouros do Ary Barroso. E ele se destaca com a música Vira e Mexe, se eu não me engano, né, Gabriel? Exatamente. E a narrativa que se conta ao redor disso é que um dia, ao redor do porto, na zona do Mangue, como você bem citou, o Luiz Gonzaga tocava sanfona, até que um indivíduo do Nordeste vê ele tocando.
E aborda ele e fala, por que você não toca aquelas músicas que tocam naquelas festas lá do sertão do Nordeste brasileiro, que são os forrós, né? Por que você não toca aquelas músicas de lá e fica só tocando essas valsas e coisas? E o Luiz Gonzaga, de fato, ele vai ter esse escalo de perceber naquele momento que as pessoas queriam ouvir aquilo, que aquilo era interessante. Ele vai retornar ao programa do Ary Barroso, vai fazer um grande sucesso e vai se tornar um solista muito recorrente dentro do universo das rádios brasileiras, a princípio, tocando músicas de caráter instrumental, sem ter ainda aquela ideia, daquela letra muito bem forjada que a gente viu nos anos posteriores. É isso aí, Gabriel.
E aí, nesse primeiro bloco, a gente vai abrir essa parte musical com o Turunas da Mauricéia, com a embolada Pinhão, que já foi citada aqui, e sobre as músicas do Luiz Gonzaga instrumental. Pois é, a gente vai ter uma música cantada, a gente vai ter Luar do Sertão, que é uma música que a gente já falou sobre ela em programas anteriores. Essa música tem a sua autoria atribuída ao Catulo da Paixão Cearense, mas ela também existe uma discordância.
Muita gente diz que é uma música de domínio público e também tem gente que diz que tem uma parte muito importante do João Pernambuco na gravação dessa música. Então, seja de domínio público, do João Pernambuco, ela é uma música muito representativa da época, foi a música escolhida para ser a primeira música tocada na Rádio Nacional, o Luar do Sertão. A gente vai ouvir a gravação do Luiz Gonzaga, que não é a primeira gravação, a primeira gravação é da década de 1910, de Eduardo das Neves, mas vamos ouvir a do Luar do Sertão do Luiz Gonzaga, que é um pouquinho mais lapidada, um pouquinho mais consolidada aos nossos ouvidos de hoje em dia.
E junto a ela, na sequência, vamos ouvir duas músicas, Vira e Mexe e Treze de Dezembro. Vira e Mexe é a primeira música que o Luiz Gonzaga grava após se apresentar no programa do Ary Barroso. E ele vai gravar com o Jacob acompanhando ele no bandolim, o Dino Sete Cordas acompanhando ele nos sete cordas.
Você vai ver que, ritmicamente, é uma música que não tem o baião muito bem consolidado ainda. É uma música que ainda soa meio choro, meio baião, ele é acompanhado por um regional de choro e ela também não tem uma lapidação no sentido de ter um início, meio e fim. Ela parece que são frases musicais emboladas em uma em cima da outra, mais para dar uma ideia de dança e de ritmo do que efetivamente para contar uma história ou ter uma narrativa com início, meio e fim.
Isso é típico de uma música que nasceu folclórica e ainda não se lapidou para se tornar mercantilizada, para se tornar um produto consumível e comprável. Então, Vira e Mexe, a nossa terceira música, e por último, Treze de Dezembro, que já é um choro tocado pelo Luiz Gonzaga na sanfona. Muita gente não conhece os choros do Luiz Gonzaga, mas ele tem alguns choros importantes.
Treze de Dezembro é o dia do aniversário dele mesmo, do próprio Luiz Gonzaga, e é um choro com a estrutura de regional e tudo mais, naquele esquema bem tradicional dos regionais de choro no universo das rádios que acontecia no Brasil durante as décadas de 1920, 30 e 40.
Você acabou de ouvir aqui no o tempo e o som Luiz Gonzaga com as músicas Treze de Dezembro Vira e Mexe e Luar de Sertão e a música que abriu o bloco foi turunas da Mauricéia, com Pinião. Bom, depois que o Gonzaga passou um pouco essa fase instrumental, e como a gente comentou também no bloco anterior, que enquanto ele tocava no mangue teve essa intervenção de um grupo de nordestinos que pediu para ele tocar as músicas do sertão, as músicas do nordeste, isso acabou dando um insight, uma ideia para o Luiz Gonzaga de olhar um pouco para essa infância dele, para o passado dele, para esse passado musical e sertanejo e ver o que que ele conseguia trazer agora para o Brasil da década de 40.
É importante a gente mencionar que o Luiz Gonzaga, a gente já comentou também um pouco disso no bloco anterior, o mercado brasileiro ali, na qual ele está inserido inicialmente, era um mercado ainda dominado por muitos ritmos e canções estrangeiras. Então o que estava tocando na rádio naquela época? Boleros, tangos, rumba, jazz, o próprio samba-canção também, que tinha uma referência ainda em canções estrangeiras. E o Gonzaga veio justamente com essa ideia de divulgar as festas, as músicas que tocavam nas festas, nos forrós do nordeste, nas cerimônias religiosas e sociais da terra dele, no folclore também.
Ele queria trazer esse universo para o universo do urbano do Rio de Janeiro e do Brasil que ele estava vivendo. Só que ele começou a procurar, o Luiz Gonzaga não era um compositor de letras, então ele começou a procurar um letrista que escrevesse letras com os temas do nordeste para as melodias que ele já estava trazendo na memória ali. Ele já tinha tentado dar esse passo com o Miguel Lima, nos anos 40 também, com o Peneirô Xerém, que já era uma das músicas 17700, mas essas composições ainda não refletiam aqueles climas das vaquejadas e das farinhadas do nordeste que Luiz Gonzaga queria transmitir agora para o chamado, entre aspas, Su Maravilha.
E aí, a partir de 1945, ele vai conhecer o Humberto Teixeira, que era um advogado cearense, que já era poeta e tudo. Enfim, dentro dos ritmos nordestinos que eles vão selecionar para iniciar a parceria deles, eles vão justamente escolher o Baião, né Gabriel? Perfeito, o Baião, ele talvez seja a primeira expressão mais clara do forró dentro do universo da música brasileira, porque primeiro, assim, existe uma confusão entre os dois termos em si. Forró seria o nome do gênero como um todo e Baião seria especificamente o ritmo dentro dele.
Então o Humberto Teixeira, junto com o Luiz Gonzaga, eles vão escolher o Baião para introduzir as pessoas, para apresentar as pessoas. Por conta disso, também fazem a música chamada Baião. A parceria com o Miguel Lima era uma parceria do Luiz Gonzaga que buscava às vezes o anedótico, falar de algo particular, peculiar, dentro do universo do São Donaldo Neste brasileiro.
Mas a parceria dele com o Humberto Teixeira, me parece uma parceria muito mais racionalizada. Era uma parceria em que se pensava bem aquilo que ia fazer. Então se introduziam ritmos, mostrava-se o Xote, mostrava-se o Baião.
Então agora eu vou mostrar para vocês como é que é o Xaxado. Inclusive, faz a mesma coisa com relação à Mazurca, por exemplo. Vou mostrar a Mazurca para as pessoas.
Alguns dão mais certo, outros não dão menos certo. Mas o Baião é aquele que talvez dê mais certo nesse momento inicial. Para entender um pouco o que é o Baião, a gente vai falar um pouquinho mais na frente sobre os diferentes ritmos que compõem o Forró e aí a gente pode especificar um pouquinho mais sobre esse tema.
Mas eu acho que nesse momento é interessante a gente pensar de que maneira esse casamento entre letra e música vai gerar um produto que vai trazer identidade sertaneja a esse Forró. Então vai-se pensar muito em falar sobre o sertanejo que está distante da sua terra, que veio para a grande cidade e que está olhando para aquele regresso, muitas vezes desterrado, com saudade da sua mulher que está lá, do seu filho, do seu roçado, que ele quer voltar, rever e que espera apenas a chuva para poder reencontrar. É o tema da Asa Branca e é o tema de diversas músicas.
Então é uma música que fala muito com o trabalhador urbano das grandes cidades brasileiras e fala também dessa nostalgia, desse espaço da saudade de quem quer regressar à sua terra, mas que por conta de questões de vida, de sustentar e tudo mais, acabou tendo que migrar para o Rio de Janeiro. Eu acho que Asa Branca é uma canção bem representativa, que também é uma parceria dele com Humberto Teixeira e também é representativa desse migrante saudoso no Sudeste, né Gabriel? E eu achei interessante que você comentou que o Humberto Teixeira e o Luiz Gonzaga tinham uma intenção comercial ali por trás da música deles, de fazer um produto que tocasse no rádio. E é importante ressaltar que essa música nordestina que eles resolveram reproduzir, embora tivesse muita coisa da memória do Gonzaga, era uma música estilizada, era uma versão mais urbana do forró.
Foi uma criação de nordestinos que já estavam radicados há alguns anos no ambiente carioca. Então, entre aspas, eu posso falar até que era uma versão um pouco mais pop da música nordestina original mesmo, que eles conheciam nas festas e nos bailes do interior do Nordeste. Perfeito.
Tudo aquilo que deixa o lugar do folclórico e vai passar para um lugar num contexto capitalista de compra e venda, de você lapidar uma mercadoria para poder ser vendida num disco, dentro de uma gravação, vai precisar de adaptações. Então, muitas vezes o pessoal pergunta assim, ah, o Luiz Gonzaga inventou o Baião? Ele inventou o forró? Não, já existia, mas ao mesmo tempo ele foi a pessoa que colocou roupagem nele para que ele fosse apresentado dentro dessa nova linguagem. Então, ele pode ser considerado o pai do Baião, até certo ponto, apesar dele não ter sido o criador dele em si, mas ele foi o lapidador, aquele que deu cara aquilo para ser apresentado dentro de um contexto urbano, na cidade do Rio de Janeiro.
Mas a parceria dele não parou apenas com o Berto Teixeira. Então, ele seguiu, posteriormente, buscando outros parceiros. Um dos grandes parceiros dele, na posteridade, vai ser o Zé Dantas, que já vai ter uma temática um pouco diferente daquela temática do Berto Teixeira nas letras.
Letras de caráter mais bem-humorado, falando de vivências distintas, que vai ser muito própria para um momento em que o forró, o Baião, o xote já foram apresentados. Já foram apresentadas as pessoas, agora vamos contar histórias, anedotas, nesse contexto. Pois é interessante você falar que ele trouxe uma nova roupagem para o Baião também, para a música nordestina, porque foi nessa época também que ele intensificou a questão do próprio visual dele, para adequar o visual ao repertório.
Então, ele começou a utilizar aquela indumentária de vaqueiro, do cangaceiro nordestino, o cangaço, que já era uma referência para o povo nordestino, também passou a ser uma referência para o Luiz Gonzaga, o chapéu de couro, o gibão, as alpercatas. Então, ele começou também a se vestir do Nordeste e percebeu que isso também ajudava a atrair atenção para a figura dele. Só duas curiosidades, a primeira aqui é que a primeira gravação de Baião não foi do Luiz Gonzaga, ele entregou essa música para o conjunto 4 Ases e 1 Coringa, que gravou a música, lançou, mas não fez tanto sucesso.
A música vai estourar depois mesmo, com o Gonzaga em 1949. Isso apontando também que com o Humberto Teixeira, mais ou menos, o Gonzaga gravou 27 músicas, a parceria deles durou mais ou menos de 1945 a 1952, e além de Asa Branca, que a gente comentou, Baião, a música Baião, eles também compuseram Paraíba, Que Nem Jiló, Respeita Januário, Assum Preto, No Meu Pé de Serra. E com Zé Dantas, a parceria iniciou a partir de 1949, foram 46 canções, e as mais representativas aí, Viajo do Navio, Cintura Fina, Xote das Meninas, Vem Morena, Sabiá, Forró do Mane vito.
Perfeito, esses dois parceiros do Luiz Gonzaga, não vão ser os únicos parceiros dele, mas vão ser aqueles mais representativos das diferentes nuances estéticas do Luiz Gonzaga. Mais pra frente na vida, a gente vai ver que ele vai ter parcerias muito interessantes, inclusive com o próprio Gonzaguinha, filho dele, de outra geração, com outra roupagem, mas, de fato, esse encontro dele com esses dois, com Zé Dantas e com Hubert Teixeira, vai ser o mais representativo pra dar essa cara de Luiz Gonzaga, a consolidação desse indivíduo Luiz Gonzaga, que vai ser o grande fenômeno de massa do Brasil na década de 1950. Ele vai ser um indivíduo que vai ter patrocínio da Amor ao Brasil, vai ter patrocínio da Shell, vai viajar o Brasil inteiro, vai ser aclamado em todo o país.
A questão da vestimenta, que você muito bem citou, vai ser muito relevante pra identidade do Luiz Gonzaga. Dizem, inclusive, que ele se inspirou no Pedro Raimundo, que era um sanfoneiro de origem gaúcha, que tocava de bombacha, tocava vestido de gaúcha e tudo mais, e ele pensa, ó, esse cara assume a identidade dele gaúcha, aqui eu vou assumir a minha identidade sertaneja e vou representar isso dentro da minha indumentária também. Então, toda essa identidade vai ser formada dentro do contexto da canção em si, e o Luiz Gonzaga vai se apropriar disso pra criar a sua persona pública, essa persona do Luiz Gonzaga.
E as letras, na parceria com o Humberto Teixeira e na parceria com o Zé Dantas, vão ser muito representativas dessa ideia da criação de um forró em si, de uma representação do Nordeste musicalmente falando. É isso aí, e pra ilustrar esse bloco e as parcerias que a gente comentou, a gente vai ouvir Luiz Gonzaga, que nem Jiló, que é uma parceria dele com o Humberto Teixeira, também com o Humberto Teixeira, Respeita Januário, que é uma referência ao pai do Luiz, né, do Luiz Gonzaga. Tem até uma história por trás dessa música, que ele volta pra Exu já reconhecido, né, e começa a tocar sanfona num baile da cidade, porém, um dos cidadãos que tava lá falava, ô Luiz, Respeita Januário que toca só uma sanfona com oito baixos, né, e a partir daí surgiu a parceria dessa música.
Da parceria com o Zé Dantas, a gente vai ouvir A Volta do Asa Branca, e, pra fechar o bloco, Linforme em Extravagante.
Você está ouvindo o Tempo e o Som na sua Rádio Eixo Você acaba de ouvir aqui no Tempo e o Som Luiz Gonzaga nas quatro últimas músicas A última delas, Linforme e Extravagante Antes, A Volta da Asa Branca Ainda antes, Respeita de Anuário E a primeira delas, Que Nem Jiló Bom, como vocês puderam ver nessas últimas músicas Cada uma delas tem um ritmo um pouquinho distinto da outra E nesse ponto, a gente achou por bem tratar um pouco aqui Sobre os diferentes ritmos que compõem esse universo do forró E de que maneira ele está mais ou menos descrito Em geral, a gente tem diversos ritmos que são encarados Como parte integrante desse gênero maior que é o forró Talvez seja difícil, até a certo ponto Delimitar quais as diferenças mais específicas entre eles Mas a gente vai tratar aqui um pouquinho de alguns deles Que são aqueles que caracterizam com mais clareza esse forró Que a gente tem estabelecido como um gênero maior na música brasileira Bom, dentro dessas festas, dentro dessa ideia de forró E dentro desse contexto todo de indumentária, de instrumentação e de execução Apropriada pelo Luiz Gonzaga, por diversos trios brasileiros Nos anos seguintes, na segunda metade do século XX Talvez aquele que mais se destaque seja o baião O baião, seguindo o dicionário de folclore brasileiro Do Câmara Cascudo Seria uma palavra que diria respeito a uma corruptela de baiano E que esse termo baiano, que seria usado desde antes do século XIX No interior da Bahia Diria respeito a um ritmo muito próximo ao chamado lundu Que teria sido tipificado como um ritmo saliente, digamos Pervertido e tudo o que aconteceria dentro dessa localidade Já pelo Manuel do Araújo Porto Alegre, na época da colonização do Brasil Então esse baiano que teria essa rítmica do lundu Teria se evoluído e chegado ao termo baião Que seria uma corruptela daquela palavra De fato, a gente vê semelhanças entre a ideia do lundu e a ideia do baião em si Principalmente, uma síncope rítmica está muito presente entre os dois ritmos A síncope seria essa sensação que a gente tem de uma antecipação do tempo seguinte Essa ideia do baião de não fazer um negócio tão reto assim como Ele faz um Antecipa a segunda batida Dando essa ideia de síncope, essa ideia sincopada Que está presente dentro do universo do baião Agora, o interessante também é perceber que esse próprio baião Em alguns lugares, ele vai ter um nome, uma terminologia diferente Com pouquíssima alteração rítmica Então é o caso, por exemplo, do rojão Em alguns lugares, chama-se de rojão o tipo de baião Que é tocado geralmente por viola e por rabeca Com viola, eu quero dizer, a viola nordestina mesmo, não a viola de arco E com rabeca, eu quero dizer aquele instrumento de arco, sim Aquele que parece um violino mais rústico e tudo mais E que com a viola e com a rabeca, os cantadores faziam desafios, conversas e tudo mais Então esse rojão, ele é um ritmo que seria praticamente idêntico ao baião Porém que seria tocado com instrumentos um pouquinho diferentes Então para as pessoas, muitas vezes é difícil a gente conseguir descrever de fato Qualquer diferença entre um e outro Mas apenas na sonoridade, a gente consegue perceber pela instrumentação que é tocada Outro ritmo que é muito interessante no universo do forró É o chamado xote, que pra gente hoje em dia Em todas as gravações, a gente acha escrito com X-O-T-E Mas que na verdade seria uma palavra derivada de scotch Que seria uma forma de escrever a chamada polca escocesa Que teria sido sucesso dentro da região da Alemanha Teria vindo para o Brasil Se estabeleceu dentro da obra de diversos pianistas Na música brasileira, como é o caso da Chiquinha Gonzaga Como é o caso do Ernesto Nazareth E que com o tempo foi se abrasileirando cada vez mais Foi se amolecendo e de scotch foi se tornando um xote A palavra foi sendo reduzida e virou um padrão dentro do universo do forró Hoje não se fala de forró, sem se falar de xote especificamente Outro ritmo que também está vinculado a essa música Ao forró, a esse gênero, seria o coco, por exemplo O coco já é muitas vezes cantado em couro Então a gente tem dentro do sertão do Nordeste Brasileiro Na Paraíba, no Rio Grande do Norte, em Pernambuco Diversas manifestações culturais de coco sendo tocadas Vale destacar o coco raízes de Arco Verde, por exemplo Que vem da região de Arco Verde, Pernambuco Em que o pessoal canta o coco batendo tamanco no chão Sapateando no ritmo do coco Em Alagoas, também há diversas formas de se dançar o coco Então é um ritmo que é muito cantado em couro Tocado com o pandeiro ao lado E geralmente acompanhado até de uma espécie de tambor Que seria um parente entre a alfaia e a zabumba Então ritmicamente o coco seria muito parecido com o baião Mas teria esse contexto de criação um pouco diferente E uma manifestação folclórica um pouco diversa em relação a ele Outro que vale a pena destacar também é o arrasta-pé Ou a marcha juninas, se vocês preferirem Que é muito mais fácil de identificar Ele é um ritmo muito mais próximo, ritmicamente, do frevo Ele parece uma marcha, ele é mais acelerado E é aquilo que a gente conhece em músicas como Olha pro Céu, São João do Carneirinho Essas músicas de São João que a gente está acostumado Para fazer quadrilha por aí Boa, Gabriel E eu queria falar aqui rapidamente Mais de uma expressão, não de um ritmo que compõe o gênero forró Mas mais de uma expressão que é bastante utilizada No contexto do forró, que é o forró pé de serra O que é o forró pé de serra? É uma expressão utilizada para se referir a um tipo de forró mais tradicional, executado pelo clássico trio Sanfona, zabumba e triângulo Essa expressão tem origem onde? Exu, em Pernambuco, a cidade de origem do Luiz Gonzaga Ela fica ao pé de uma serra, que é a Serra do Araripe Então esse som mais tradicional do forró E que foi, claro, que inicialmente é difundido pelo Luiz Gonzaga Ficou conhecido como forró pé de serra Perfeito, e vale a gente destacar aí alguns outros Que a gente pode encontrar que estão vinculados ao universo forró É o caso da embolada, por exemplo Que está vinculado ao coco de embolada É um canto improvisado muito comum no sertão do Nordeste Pelos cantadores e nas praias também É o caso, por exemplo, também do xaxado Que está muito associado aos cangaceiros Por exemplo, você tem o Volta Seca Que era cangaceiro do bando de Lampião Que vai acabar sendo compositor de xaxados importantes Uma dança que é um pouco diferente Se dança sozinho, geralmente sapateando E é conhecida como sendo a dança dos cangaceiros Então a gente tem diversos ritmos que estão vinculados A esse universo maior, que é o universo do forró E que podem ser encontrados em diversas gravações Que a gente se depara nos discos dos principais compositores do universo do forró Bacana, Gabriel E só complementando a questão do xaxado Consideras que foi, de fato, uma dança criada pelo universo do cangaço O nome xaxado é uma onomatopeia Para representar o barulho das sandálias, das alpercatas Passando no chão, deslizando, fazendo xixi E eles também, parece que utilizavam muito os rifles deles Para marcar o ritmo Na época não tinha o acompanhamento ritmo à música Não tinha o acompanhamento musical Eram mais as letras cantadas O barulho das sandálias e dos rifles também Marcando o ritmo no chão E assim, uma das músicas principais Músicas do cangaceiro e do xaxado Que a gente vai até tocar nos próximos blocos É a Mulher Rendeira Ela nasce ali no universo dos cangaceiros E, enfim, depois vira uma música popular Bom, nesse bloco, para ilustrar o baião A gente vai ouvir Forró no Escuro, do Luiz Gonzaga Para representar o xote Pisa na Fulo Do compositor maranhense João do Vale Para representar o coco, Coco do M, do Jacinto Silva e fechando o bloco, um xaxado. Marinês Com a música Rainha do Xaxado.
Você está ouvindo o Tempo e o Som Na sua Rádio Eixo Você acabou de ouvir aqui no Tempo e o Som, Marinês cantando Rainha do Xaxado, Jacinto Silva cantando Coco do Hemi, antes João do Vale cantando Pisa na Flor e antes ainda Luiz Gonzaga cantando Forró no Escuro, parceria do Rei do Baião com Miguel Lima. Nesse momento então vamos tentar entender um pouco a estrutura de bandas que existe dentro desse universo do forró, porque de fato o Luiz Gonzaga ele vai optar por uma formação que é uma formação muito enxuta, que é uma formação que vai permitir ele viajar o Brasil dentro de um carro apenas.
Então a ideia de você ter um triângulo, uma sanfona e uma zabumba vai gerar um grupo bem sintético e vai acabar se tornando um divisor de águas e do universo do forró, sendo imitada por diversas pessoas e se tornando um padrão quase para as festas de forró em geral. Inclusive vários trios muito importantes vão surgir no Brasil posteriormente, a gente tem por exemplo os Três do Nordeste, o Trio Nordestino, são vários trios muito relevantes que vão surgir dentro daquele momento em si. Inclusive o próprio Luiz Gonzaga durante a carreira dele ele vai alternar seus trios, ele vai ter um trio específico, depois ele vai trocar para outro trio, então ele vai acabar trocando a formação do grupo dele em alguns momentos.
Faço destaque aqui para a troca que ele vai fazer quando ele formar a patrulha de choque do Rei do Baião, que é o trio que foi formado pela Marinês, pelo Abdias da sanfona e pelo Cacau na zabumba, músicos muito importantes e muito relevantes dentro do universo do forró, não é mesmo Tiago? É isso aí Gabriel, a Marinês, ela é uma pernambucana que era fã de Luiz Gonzaga, ela apareceu para a música após ganhar um programa de calouros em Campina Grande, na terra dela, Paraíba, na época ela era menor e artistas nem sempre eram bem vistos, principalmente lá no interior do Nordeste, então ela participava desses concursos escondidos do pai dela, e aí claro, quando perguntavam para ela qual o nome dela, ao invés de falar que o nome dela era Inês, ela falava meu nome é Maria Inês, e claro que depois com ela acabando tendo reconhecimento, participando de mais programas, na locução de alguns apresentadores, eles acabavam juntando, Maria Inês virou Marinês, então a Marinês, depois de participar de alguns programas de calouros, foi contratada pela rádio difusora de Campina Grande e lá conheceu o sanfoneiro Abdias, o Abdias, ele era sanfoneiro, o pai dele também era sanfoneiro, ele acompanhava o pai no forró, é uma história até similar ao Luiz Gonzaga, é interessante pensar Gabriel, também que esses grandes sanfoneiros, o Abdias, o Dominguinhos, o próprio Luiz Gonzaga, a tradição, porque o pai deles também era sanfoneiro, então o Abdias acabou conhecendo a Marinês, eles formaram um par romântico, a Marinês na época na verdade cantava música romântica, foi o Abdias que sugeriu a ela migrar para cantar música regional, eles acabaram formando o trio que o Gabriel comentou junto com Cacau na zabumba, era Cacau na zabumba, Abdias tocando sanfona e a Marinês tocava triângulo, então eles tocavam muito em circos, em cinema, músicas de Luiz Gonzaga. Luiz Gonzaga ficou sabendo desse trio, as pessoas comentaram com ele, ele acabou conhecendo o trio e acabou adotando esse trio, como a tropa de choque que o Gabriel falou, a partir de 1956, como acompanhante deles, então o Abdias e a Marinês que depois vão gravar diversos discos solos, eles acompanharam o Gonzagão em diversos shows pelo Nordeste. E é importante até para a gente entender o contexto de formação desse grupo, dessa patrulha de choque do Rei do Baião, é a gente entender a centralidade que vai ter a Rádio Borborema dentro do universo de Campina Grande, então a Marinês ela vai aparecer primeiramente dentro de um concurso de calor na Rádio Borborema e a cidade de Campina Grande era uma cidade extremamente relevante economicamente para o Nordeste pela produção de algodão durante a época, era uma das principais cidades do Nordeste brasileiro e a Rádio Borborema irradiava e era ouvida por todo o Nordeste, as pessoas muitas vezes gravitavam em se tornar dono de Campina Grande para poder tocar. Então vários músicos muito importantes vão ser oriundos do contexto da Rádio Borborema, é o caso da Marinês, é o caso do Abdias, mas também é o caso do Genival Lacerda, do Flávio José, é o caso do Antônio Barros, do próprio Jackson do Pandeiro, também que apesar de ser a lagoa grande na Paraíba, estava vinculado também a Campina Grande, então você vai ter diversos músicos muito relevantes que vão estar dentro desse contexto dessa Rádio Borborema que vai irradiar o sertão como um todo.
Só complementando Gabriel, tem mais um também que é o Zito da Borborema, que ele tocou com o Gonzagão como pandeiro e depois lançou diversos discos solo. Inclusive que é um padrão interessante, a gente pode pegar o Zito da Borborema pandeirista, a gente vai ter o Jackson do Pandeiro também pandeirista, você vai ter o Pernambuco no Universo do Coco, que vai ser trazido em boa parte pelo Jackson do Pandeiro, a gente vai falar mais pra frente, diversos pandeiristas surgindo, inclusive dentro do contexto aqui de Brasília, de onde a gente fala, o Pernambuco do Pandeiro vai ser um indivíduo que vai surgir dentro dessa região, mas essa febre irradia de uma maneira tão grande, a gente vai ter diversos músicos surgindo e renovando essa cena musical do forró. A gente tá falando desde da citada Marinês, Jackson do Pandeiro, como também de Dominguinhos, de Sivuca, do próprio Hermeto Pascual, músicos que surgem dentro do universo do forró em si e que até certo ponto são tributários de toda essa influência que foi trazida pelo próprio Luiz Gonzaga, algo sobre o qual Luiz Gonzaga não tinha controle de fato, mas pelo qual ele foi o desencadeador, ele desencadeou talvez as mudanças que geraram essa efervescência cultural dentro do universo do forró.
Nesse bloco, então, vamos ouvir Marinês cantando Peba na Pimenta, música de João do Vale, vamos ouvir Antônio Barros cantando Dor de Cabeça, música dele mesmo, Volta Seca com Mulher Rendeira, Volta Seca que foi citada aqui como ex-cangaceiro do Bando de Lampião e o grande músico Ari Lobo com Filho de Tupinambá.
Você está ouvindo o Tempo e o Som na sua Rádio Eixo Você acabou de ouvir aqui na Rádio Eixo Ari Lobo com Filho de Tupinambá Antes, Volta Seca, Mulher Rendeira Gabriel já comentou, Volta Seca ele era de fato um cangaceiro que atuava no bando de Lampião Só que posteriormente ele gravou um disco de 10 polegadas com as músicas que os cangaceiros cantavam lá no bando, tá? Esse disco inclusive está disponível nessas plataformas digitais E você consegue ouvir A segunda música do bloco foi Antônio Barros Com Dor de Cabeça E abrindo o bloco, Marinês Com Peba na Pimenta A partir de todo esse contexto que a gente comentou no último bloco Da Rádio Borborema E dessa geração que estava aparecendo para o Brasil Após o sucesso do Luiz Gonzaga nos anos 40 E a gente já está falando agora mais ou menos De meados dos anos 50 Vai aparecer talvez um dos principais nomes do forró após o Luiz Gonzaga Que é o Jackson do Pandeiro Ele aparece mais ou menos em 1953 Quando a primeira onda do Baião já começa a se arrefecer Depois do Luiz Gonzaga E o Baião tinha um andamento um pouco mais lento E o Jackson do Pandeiro vai vir com o ritmo do Coco Que era um ritmo mais rápido, mais sincopado Além disso, é importante falar também da parceria do Jackson com a sua mulher Almira Que rendia boas performances no palco Quase que te atrasa O Jackson era uma figura super engraçada O humor, de verdade, era uma parte muito importante Dentro da apresentação do Jackson do Pandeiro O Jackson era uma figura que sempre fazia brincadeiras dentro das suas músicas E sempre simulava uma situação inusitada Então, existe música em que ele é pego com a empregada dentro da casa do delegado Existe música em que ele, de repente, se depara com a situação De que ele se torna um toureiro no meio de uma tourada Então ele sempre busca muito o humor dentro da sua musicalidade Mas era alguém que tinha uma capacidade rítmica impressionante Era um músico que revolucionou a execução do pandeiro Talvez seja um dos primeiros músicos a usar sextina dentro do universo do instrumento E, de fato, era um músico muito competente como pandeirista E, além disso, tinha uma capacidade de cantar em uma rítmica e tocar em outra Algo que é muito complexo de se fazer quando você está tocando pandeiro Jackson, em si, é uma figura sui generis dentro do universo da música brasileira Ele vai ser muito importante dentro do universo do forró Vai estabelecer com muita força em Recife Apesar de estar dentro daquele universo Marcado pela Rádio Borborema, que a gente falou anteriormente Ali da cidade de Campina Grande Ele vai estabelecer como músico com mais força no contexto recifense E depois vai migrar para o Rio de Janeiro E no Rio de Janeiro, além de cantar os seus cocos famosos Baiões e Xotes que ele cantava Ele também vai se enveredar pelo samba Então vai fazer diversos sambas Vai ser um grande compositor Vai fornecer música para diversos cantores Dentro do universo do samba no Rio de Janeiro Então vai ser uma figura que não vai estar restrita, de fato, ao forró Mas vai tentar, até certo ponto Ocupar um espaço que foi deixado pelo Luiz Gonzaga O Luiz Gonzaga vai ter uma pujança muito grande Vai ser muito celebrado E depois o Jackson do Pandeiro virá tentando rivalizar com ele Então se o Luiz Gonzaga é o rei do baião O Jackson do Pandeiro vai ser o rei do ritmo Então vai trazer toda essa ideia da rítmica, da brincadeira Da jocosidade das letras Para dentro da interpretação dele E ele tem histórias inusitadas Demais dentro da carreira dele Uma delas diz respeito à sua religiosidade, não é mesmo, Thiago? Exatamente, né, Gabriel? Já é bem conhecida a relação do músico Tim Maia Com o movimento esotérico da cultura racional Que inclusive foi responsável pelo lançamento De dois discos antológicos do síndico Em 74 e em 75 O Racional 1 e o Racional 2 É menos comentado o envolvimento do Jackson do Pandeiro Com o mesmo movimento da cultura racional O Jackson inclusive Ele conheceu antes a cultura racional E começou a se envolver com o movimento antes do Tim Maia O Tim Maia na verdade é que ele comentou com ele Sobre a cultura racional Foi o Nelson Motta Ele falou, olha Tim Maia, o Jackson do Pandeiro Entrou na cultura racional E a carreira dele melhorou também depois dele Deu um novo up, uma nova melhorada Claro que isso já era anos 70, né? Então assim, o Jackson do Pandeiro Ele foi referência para o Tim Maia para entrar na cultura racional Ele gravou música com temática racional em 74 Porém, assim, os discos que ele grava música Sobre temas e comentando da cultura racional São os discos do Jackson do Pandeiro de 77 e 78, né? Principalmente o disco Alegria Minha Gente E uma outra questão também, né Gabriel? É que o Jackson do Pandeiro ele vai falecer em Brasília Em 1982, após o show No dia seguinte dele, é um show aqui em Brasília Ele acaba falecendo foram diversos músicos que morreram após apresentarem em Brasília E diversos também os músicos que estavam vinculados ao universo da cultura racional, né? Você falou do Jackson, do Tim Maia. Mas também Altamiro Carrilho, Emilinha Borba Vai ter um pessoal importante Dentro do contexto do universo racional essa seita, né? Que era encabeçada pelo Manuel Jacinto E que trazia essa ideia de um racional superior que se comunicava com as pessoas tem a ver com o esoterismo, com extraterrestres E muito mais, mas bom, nesse bloco vamos ver um pouco desse esoterismo Do Jackson do Pandeiro e também do humor dele, né? Então primeiro vamos começar com Pai Orixá Uma música que tem claramente referência aos ritos afro-brasileiros, né? Em que ele fala sobre um terreiro um orixá e coisas do tipo depois vamos ouvir a parte bem-humorada do Jackson do Pandeiro No Forró de Zé Lagoa e no Forró em Caruaru Duas músicas em que ele usa do humor para se comunicar E por fim, Luz do Saber Essa que é uma música da época Da fase racional do Jackson do Pandeiro.
Você está ouvindo o Tempo e o Som, na sua Rádio Eixo Você acabou de ouvir aqui no Tempo e o Som Jackson do Pandeiro com A Luz do Saber, Forró em Caruaru, Forró do Zé Lagoa e Pai Orixá Bom, após essa geração do Jackson do Pandeiro ali nos anos 50, a gente vai ter um outro nome que foi muito importante para a difusão do forró no sul Que é o Pedro Sertanejo, que lá pelos idos dos anos 60, o baiano que estava radicado em São Paulo vai fundar no bairro do Braz a primeira casa de forró de São Paulo O forró do Pedro Sertanejo, o Pedro Sertanejo ele migrou primeiro da Bahia para o Rio, porém lá no Rio ele ficou ciente que em São Paulo abrangiam contingentes de nordestinos muito maior Aí ele acabou indo morar em São Paulo também.
Bom, no forró de Pedro Sertanejo era uma casa lá super conhecida, só para vocês verem alguns nomes que passaram pelo forró do Pedro Sertanejo né Genival Lacerda, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, ajudaram a construir a fama do local que ficou sendo um polo da cultura nordestina por 25 anos, até mais ou menos 1990 É claro que o Luiz Gonzaga também tocou no forró do Pedro Sertanejo né O Pedro Sertanejo além de ter fundado essa casa de forró, ele mesmo era sanfoneiro, ele vai acabar gravando 25 discos, só ele né Então basicamente ele é considerado o embaixador do forró em São Paulo E dentre esses discos que o Pedro Sertanejo gravava, ele gravava também, ele tinha um projeto que era com a família dele, com seus próprios filhos que também tocavam instrumentos né Que era Pedro Sertanejo e seus meninos Dentre esses filhos dele, um se chamava Osvaldo, que mais para frente vai ficar conhecido como Osvaldinho do Acordeon Que também é um ótimo sanfonista, que tem uma formação inclusive mais clássica né Ele ficou conhecido por misturar baião com música clássica né Ele gravou discos também Forró in Concert, na qual ele tem um arranjo para a 5ª Sinfonia de Beethoven né Que é com sanfona, zambumba e triângulo, é bem interessante o trabalho do Osvaldinho né Agora sim, o Pedro Sertanejo além de ser pai do Osvaldinho, além de ter gravado diversos discos como acordeonista Além de ter fundado o forró do Pedro Sertanejo, ele foi super importante também na história do desenvolvimento do forró Porque ele fundou um selo, um selo de gravação, que era o Cantagalo E vários artistas lançaram discos pela Cantagalo né Claro que os próprios discos do Pedro Sertanejo saiam pela Cantagalo Mas também o Ali Lobos gravava pela Cantagalo né O Jackson do Pandeiro gravou também né Ele também foi o primeiro cara que convenceu o então acordeonista Neném do Acordeon A gravar um disco solo pela Cantagalo E esse acordeonista, que veio a ser conhecido depois como Dominguinhos Gravou na verdade os oito primeiros discos por essa gravadora Dominguinhos também é uma figura super importante na história do forró né Gabriel Dominguinhos é extremamente relevante por ter, como diz o Luiz Gonzaga, urbanizado o forró E não no sentido de que o forró não fosse urbano já com o Luiz Gonzaga Mas porque ele traz pro forró uma concepção de modernidade Que tava muito bem disseminada dentro daquele momento da década de 1960 Quer dizer, quando você tem a formação da MPB e os artistas Que vão começando a ressignificar a música brasileira e romper as fronteiras entre elas A maior parte deles tem como referência figuras como o Luiz Gonzaga Figuras como Dorival Caymmi e outros cantores mais antigos Então nisso eu tô falando de Gil, Caetano, Chico, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Milton Nascimento Toda essa geração que vem da MPB, ela tem uma base, até certo ponto E uma relação com aquilo que vinha antes Seja pela sua música local, seja na disseminação dessa cultura nordestina Que é trazida pelo próprio Luiz Gonzaga E o Dominguinhos, ele é justamente dessa geração Ele vem justamente com essa faixa etária Ele também é da década de 1940 E ele vai estabelecer uma relação muito importante Tanto com o Luiz Gonzaga, quanto com esse pessoal da MPB Então a parceria do Dominguinhos com o Gilberto Gil, por exemplo É uma parceria muito notória, muito bem estabelecida Eles gravaram juntos Abrir a Porta Compuseram juntos Lamento Sertanejo Eu Só Quero um Xodó, Tenho Sede São diversas as músicas que remetem tanto ao Dominguinhos quanto ao Gilberto Gil E dentro do antológico disco Refazenda do Gilberto Gil Você tem a sanfona do Dominguinhos tocando Então ele vai estabelecer essa relação com muita intensidade E vai estabelecer também uma relação importante Com a geração subsequente da MPB Que é a geração do Alceu Valença, da Elba Ramalho Do Fagner, por exemplo, que também fazia referência muito grande ao Luiz Gonzaga Então esses compositores nordestinos que vão surgir dentro do contexto da segunda geração da MPB Também vão ter uma relação muito intensa com o Dominguinhos O Gil e a Gal passaram a conhecer o Dominguinhos melhor A partir dos shows que o Luiz Gonzaga estava fazendo lá nos anos 70 em Copacabana Gonzaga volta para curtir Ele fez uma série de shows em Copacabana O sanfoneiro dele era o Dominguinhos E a Gal e o Gil estavam indo nessa temporada de shows assistir E eles conheceram o Dominguinhos Levaram o Dominguinhos a partir desses shows para tocar na França com eles Em um festival que tinha lá E depois ele já voltou fazendo a turnê da Gal em Índia E também estreitando essa parceria com Gilberto Gil E depois em 1973 o Gilberto Gil vai continuar fazendo muito sucesso Com aquela composição do Dominguinhos e da Anastácia A Anastácia foi uma super parceira do Dominguinhos Que só quer um xodó A Anastácia e o Dominguinhos foram marido e mulher Foram casados durante uma época Tiveram inúmeras parcerias O Luiz Gonzaga gravou diversas parcerias de Anastácia e do Dominguinhos Reza a lenda que haviam muito mais compostas Mas quando eles se separaram na mágoa do rompimento da relação A Anastácia teria queimado fitas do Dominguinhos Que ele tinha feito de composições para ela letrar Mas ainda assim deixaram um legado gigantesco de músicas que estão dentro do universo do Forró. Outro destaque que vale a gente fazer de interface com a MPB Entre os sanfoneiros e a MPB em si Herdeiros do Luiz Gonzaga e a MPB É do Sivuca. Sivuca é uma figura extremamente relevante também Assim como o Dominguinhos Ele que era mais velho que o Dominguinhos O Sivuca era da década de 1930 Então ele já era mais velho Mas ele vai se estabelecer também Dentro desse período da MPB Com uma parceria grande com o pessoal da MPB Ele fez João e Maria, por exemplo Com Chico Duarte Também compunha com sua esposa, Glorinha Gadelha Fizeram junto feira de mangá Mas vai até externar o território nacional O Dominguinhos vai chegar a ser diretor musical Da grande cantora Miriam Makeba Vai passar um tempo na França, em Portugal Vai fazer trilha sonora para filmes. Então você vai ter uma representação De obra artística do Sivuca Que é gigantesca E que também gera uma relação muito interessante Com essa MPB que vem na década de 1960 Para frente O interessante é que ao mesmo tempo Que essas pessoas estão sendo muito referenciadas E essa interface está sendo feita O próprio Luiz Gonzaga já não tinha mais O espaço que teria anteriormente Então ao mesmo tempo que o legado Do Luiz Gonzaga se aprofunda Cria raiz na música brasileira E seus herdeiros acabam tendo uma interação muito grande Com esses novos nomes na música brasileira O próprio Luiz Gonzaga em si Se encontrava até certo ponto em um ostracismo Ele não tinha tanta representação Quanto ele teria anteriormente Nesse ponto Até vai ser muito interessante O estabelecimento de uma parceria Que ele vai começar a ter com seu filho Gonzaguinha Que era dessa segunda geração da MPB Ele vai gravar um disco Chamado Canaã Que é só de músicas do Gonzaguinha Um disco lindo, com maracatus Com forrós e coisas desse tipo E até com uma temática política um pouco mais forte Coisa que não era muito própria Do Luiz Gonzaga Era um indivíduo que se colocava meio que a margem Da questão política que acontecia no Brasil Já o seu filho Gonzaguinha Que era muito politizado, muito intenso nisso Eles vão estabelecer até O Luiz Gonzaga vai gravar Músicas como Diz Que Vai Virar Que é uma música de teor político Muito clara Numa tentativa de reavivar até certo ponto A sua carreira e de ter um pouquinho mais De presença dentro daquele universo Da música brasileira Já que apesar de referenciado Ele não era tão acessado Não recorriam tanto a ele como muitos Naquele momento Isso aí Gabriel, dessa época também é aquele disco Do Luiz Gonzaga O Canto Jovem de Luiz Gonzaga, de 71 Que ele grava só com músicas de artistas da MPB Da época Então tem música do Caetano Do Gil, do Geraldo Vandré Do próprio Gonzaguinha Que você falou aí Inclusive a capa desse disco Ela é bem diferente da capa dos outros discos do Gonzaga Aparece ele sendo retratado Sorrindo em frente a um prédio Envidraçado, sem sanfona Sem traje nordestino E com uma roupa mais social Isso assim, era uma tentativa De representar um Gonzaga um pouco mais moderno E urbano E só comentando também Nesse disco que eu estou falando de 71 Do Vandré, ele canta Ficar Mal Com Deus, que é a música do Geraldo Vandré Mas tem um compacto Também que ele gravou E que foi recolhido pela ditadura Com outra versão do Geraldo Vandré também Que era Pra Não Dizer Que Não Florei de Flores Que também é uma música da MPB engajada Vamos nessa, vamos ouvir Um pouco desse Dominguinhos Um pouco mais moderno Então vamos ouvir agora Dominguinhos Com Bigode de Arame Um forró instrumental do Dominguinhos Que ele dizia compor como choro Numa estrutura de choro Vamos ouvir também Dominguinhos com Tenho Sede Que é uma música do disco Domingo Menino Dominguinhos Um disco até o ponto controverso do Dominguinhos Que ruma para uma musicalidade Um pouco mais moderna O pessoal mais tradicionalista do forró torceu o nariz para esse disco Mas hoje em dia é um disco muito aclamado dentro de setores da música brasileira Vamos ouvir Anastasia Cantando uma música de Dominguinhos e Anastasia Chamada Cheguei Pra Ficar Marinês Cantando uma parceria também de Dominguinhos e Anastasia Com Só Quero Um Xodó E vamos ouvir o Zito Cantando o forró do Pedro Que faz justamente referência Ao Pedro Que criou a gravadora Canta Galo
Você está ouvindo O Tempo e o Som Na sua Rádio Eixo O Tempo e o Som Ouvimos agora Zito cantando o forró do Pedro, Marinês cantando Só Quero um Xodó, Antes Anastácia com Cheguei Pra Ficar, Dominguinhos com Tenho Sede e Dominguinhos com Bigode de Arame. E pra gente poder encerrar esse nosso forró, sabendo que a gente tem uma lacuna grande em relação a grandes compositores do universo do forró que não podemos abordar aqui, é interessante a gente tratar um pouco como esse forró até certo ponto foi abrindo mão desse tradicionalismo gonzagueano, dessa ideia de retratar apenas o sertão e tratando de temas um pouco mais urbanos e até explorando interações com outros ritmos. Então quando a gente vai falar da MPB, por exemplo, a ideia de você conseguir quebrar a fronteira dos ritmos vai ser muito relevante para esses compositores.
Tanto para aqueles compositores que são oriundos do Nordeste Brasileiro, como é o caso dos já citados aqui, Fagner, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, entre outros, como também de compositores que não seriam claramente associados a esse universo do forró, mas que passam a se relacionar com ele. Então a gente começa a ver, de acordo com o tempo, quando vai passando a década de 80, 90, os anos 2000 e até a atualidade, cada vez mais compositores oriundos do Rio de Janeiro, oriundos de São Paulo, gravando forrós e não tendo medo de gravar forrós. É até um tema interessante quando a gente vai analisar, por exemplo, a biografia do Ney Mato Grosso, que gravou Homem com H, a música de Antônio Barros, e que quando foi gravar Homem com H não se sentiu à vontade para gravá-la por não ser oriundo do Nordeste brasileiro e se encarar como se fosse um estrangeiro daquele território.
Para poder convencer o próprio Ney Mato Grosso a gravar essa música, ele precisou de uma intervenção do Gonzaguinha, falando, não, cara, isso aí não tem nada a ver, você cante essa música porque ela tem tudo a ver com a sua carreira e ela ganha um outro significado sobre a sua voz. A mistura de forró com rock, por exemplo, a gente pode encontrar em diversos discos, como os discos do Alceu Valença, principalmente os primeiros discos, em que se usava bastante guitarra e viola, se usava baião também, vão ser extremamente relevantes para a musicalidade do forró e para essa renovação do forró em si. Dentro da década de 1990 e dos anos 2000, o que a gente viu foi uma renovação mais jovem desse forró.
Na verdade, surgiu o chamado forró universitário, que teria surgido nas calouradas das universidades do interior de São Paulo, em que jovens que estavam vinculados a essas calouradas tocavam forrós, principalmente shorts, para se dançar em pares, sempre com uma pegada um pouco mais moderna e grupos como Falamansa, Raça Pé, que se estabeleceram nessa época, sempre reverenciando e não negando a origem gonzaguiana deles, sempre fazendo uma certa referência às tradições do forró, mas também colocando temáticas de sofrimento, letras um pouco mais universais, menos regionais, e trazendo uma roupagem que agradou bastante a juventude da época. Sendo assim, o forró universitário acabou se tornando uma grande febre nos anos 2000 e trazendo uma certa renovação para o público do forró como um todo. Além disso, o que a gente pode dizer é que esse forró também buscou outros ritmos, começou a se interagir com outros ritmos em si e na juventude também se buscou esse tipo de linguagem, não é mesmo, Tiagueira? Eu acho importante destacar que o forró, mesmo que muitas vezes, porque a gente está comentando tudo agora da década de 90, falamos um pouco do MPB ali também, mas é bom pontuar que, claro, depois do sucesso do Luiz Gonzaga e do Jackson do Pandeiro, teve um declínio do forró nos meios de comunicação, principalmente com a emergência da Bossa Nova, depois do iê-iê-iê da Jovem Guarda, e depois também veio o tropicalismo, que, na verdade, até puxa um pouco o forró.
Inclusive, quando a Jovem Guarda estava na moda, Luiz Gonzaga fez até o xote dos cabeludos, que era uma maneira de criticar esse ritmo, e também, claro, ele percebendo que o forró estava perdendo espaço ali. Mas, mesmo assim, é importante ressaltar que, embora no Sul, aqui, no Sudeste e no resto do país, o forró, mesmo que não estivesse em tanta evidência, na região Nordeste, o forró continuou sendo um ritmo e uma dança muito forte, de muita relevância, e, é claro, até hoje, o forró é um símbolo da cultura dos nordestinos, do interior, representa muito bem o universo sertanejo. As letras do forró ainda retratam muito a vida simples, o homem rural do Nordeste, a plantação, o gado, a seca, as chuvas difíceis, as danças, as festas de São João.
Então, o forró ainda carrega muito do Nordeste, por mais que ele tenha se modernizado, ele ainda traz muito daquele universo, daquela região aqui do Brasil, que é muito importante, e é muito importante a identidade também desse povo, né, Gabriel? É, o forró, como a gente falou no início, e como a gente reitera agora, ele é extremamente responsável para a criação da ideia de Nordeste. A criação, a invenção do conceito de Nordeste, ela se estabelece ao redor da musicalidade, das letras e de toda a representação simbólica que o forró tem para aquela região em si. Então, ele se dissemina, ele abrande novas fronteiras, mas ele nunca vai deixar de perder essa identidade vinculada ao Nordeste brasileiro.
Para encerrar, então, esse bloco do nosso programa, vamos ouvir três músicas que são oriundas do encontro entre essa música um pouco mais moderna e o forró mais tradicional. Primeiramente, vamos ouvir Alceu Valença e Luiz Gonzaga cantando Plano Piloto. Na sequência, vamos ouvir Gilberto Gil cantando Esperando na Janela, música que está no seu disco As canções de Eu, Tu, Eles, em que ele retrata muito bem e grava bastante da obra do Luiz Gonzaga.
E, por fim, vamos ouvir Mariana Aydar cantando Onde Está Você, uma música em que ela faz uma mistura entre o reggae e o xote. Lembrando que o reggae e o xote, eles têm uma coincidência rítmica, que é essa situação no contratempo. E na música dela isso mostra muito claramente.
Ela pega um xote e grava como se fosse basicamente um reggae, ou se você preferir ela faz um xote reggaeado até certo ponto, marcando bastante essa interação entre essa música um pouco mais contemporânea, um pouco mais moderna, e esse forró mais tradicional sendo que tem significado para os dias atuais. É isso aí, pessoal. Um cheiro e até a próxima.
Esse foi O Tempo e o Som Com Tiago Santos e Gabriel Carneiro



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