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Valéria Pena-Costa

Você também come pássaros

 

A escritora argentina Samanta Schweblin tem um conto chamado Pássaros na boca (2007). É a história de uma menina que, para desconsolo de seus pais, adquiriu o peculiar hábito de comer passarinhos — vivos. 

 

Valéria Pena-Costa lembra da vez em que um de seus gatos trouxe para ela um passarinho — morto. O presente deixou Valéria desconcertada. Na tentativa de emprestar alguma dignidade à situação, a artista tentou incorporar o bicho numa de suas composições — uma natureza morta.

 

Valéria tem voltado aos passarinhos desde então. Recebeu aulas de taxidermia e produziu pelo menos um par de séries com corpos de passarinhos — ou pedaços deles — em almofadas de cetim vermelho, em molduras de madeira. 

 

Os gatos, porém, nunca mais prestaram esse tipo de contribuição espontânea.

 

Lembrei do primeiro passarinho de Valéria, e do conto de Samanta, quando voltava do ateliê da artista brasiliense depois de um de meus primeiros encontros pessoais em meses e meses de deriva.

 

Valéria parece ter passado todo esse tempo — de luto coletivo e dor pessoal — em franca produção. Ela contou que, após vinte anos de atividade artística, pela primeira vez voltou à pintura, linguagem com que tinha trabalhado apenas na época de estudante da Universidade de Brasília.

 

Várias dessas recentes pinturas trazem meninas vestidas de bichinhos peludos — chapeuzinhos de raposa, de onça, de urso. Tantas meninas e tantos chapéus fofinhos que Valéria de repente se deu conta de que havia ali uma nova série. 

 

Uma série com gaviões e pintinhos.

 

— Você come pássaros, Sara — eu disse.

 

— Sim, pai.

 

Mordeu os lábios, envergonhada, e disse:

 

— Você também.

 

— Você come pássaros vivos, Sara.

 

— Sim, pai.

 

Os primeiros trabalhos de Valéria Pena-Costa que eu conheci, gravei na memória e me despertaram o interesse pela artista foram os desenhos em nanquim sobre papel da série Camafeus. Delicados vestidos brancos de menina se confundindo com ramos e folhagens, como se uns continuassem nos outros, como se uns desaparecessem nos outros. 

 

No ateliê de Valéria Pena-Costa pude rever um desses vestidos. Me pareceu estar sendo absorvido, lentamente entrando nas ramagens. Nada restará dele.

 

Raposinhas, oncinhas, ursinhos e meninas — nem tão fofos assim.

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