top of page
  • Paola Antony

O Diletante

MARTINS PENA

PROGRAMA 4 – O DILETANTE




 

A RÁDIO EIXO APRESENTA EIXOENCENA

 

BG -  “Mambembe” Chico Buarque (versão Chico e Roberta Sá) 

 

Narrador (rádio novela) – Olá ouvintes, este é o programa EIXOENCENA. Uma série de Rádio-Teatro que fará ao longo deste ano uma homenagem ao Teatro Brasileiro do séc. XIX e ao Teatro de Brasília. Eu sou LÍLIAN ALENCAR e o nosso primeiro autor da série é “MARTINS PENA”.  O elenco do projeto EIXOENCENA é formado por mim PELA ATRIZ  KARLA CALASANS, PELO ATOR TIAGO DE CARVALHO e grande elenco. Neste QUARTO E ÚLTIMO programa desta série temos uma cena da peça o “O Diletante”.

 

BG “Lundu de rapariga” com Alcione

 

Narrador (rádio novela) – A comédia ácida “O diletante” foi inspirada na apresentação da ópera “Norma” de Bellini que fora apresentada no Rio de Janeiro em 1844. Um pai amante da música clássica e preocupado com uma filha para que a mesma tenha um bom casamento, quer alguém com dinheiro para ela, mas também com cultura de bom gosto e que goste da grande música. Na cena a seguir, a menina Josefina, filha do amante da música, é alvo da conquista de um pseudo-advogado, Gaudêncio, sem vergonha do Rio de Janeiro, pobre e “parasita”. O outro pretendente é um paulista sem modos e caipira, mas muito rico e fazendeiro, chamado Marcelo. Já vai entrar Gaudêncio, o falso cantor e o pretendente pobre, bora bora ouvir...

 

Gaudêncio — Em boa me meti eu! Agora é preciso sustentar a mentira que sei cantar... Não sei como há de ser!

 

Narrador (rádio novela) – Então Josefina que observava Gaudêncio da porta, encaminha-se em direção a ele, sem que o mesmo a veja. Logo que chega junto do homem, toca-lhe o braço. Gaudêncio julgava que era Antônio, o criado, que está de volta com a água que foi buscar, por conta de sua tosse e finge-se de novo engasgado.

 

GAUDÊNCIO – TOSSE FORTE E VÁRIAS VEZES

JOSEFINA — Senhor Gaudêncio, Sou eu! (Apressada.)

Gaudêncio — Ah MENINA JOSEFINA!

Josefina — Tenho um anúncio trágico para nós, meu pai quer que eu me case com o paulista...

Gaudêncio — Com o paulista? Isso agora é maior engasgadela...

Josefina — Continue a dizer para o papai que sabe cantar, cante mesmo alguma coisa... A minha mamãe é por nós. Cante, cante, que conseguirá tudo do papá. (Corre para dentro.)

 

Narrador (rádio novela) Josefina corre para dentro da casa

 

Gaudêncio — Espere, espere Josefina. A menina correu meu Deus. Ela quer que eu cante? É bom de se dizer! Casar-se com o paulista? Adeus, perdi a boquinha! Saia o que sair, dou exercício à goela, canto e tento conquistar o velho...

 

Narrador (rádio novela) Neste momento entra um pajem com uma carta e entrega a Gaudêncio.

 

 

Criado (KARLA) — Uma carta para o senhor Gaudêncio, que acabam de trazer

Gaudêncio — Dê cá enxerido. (O criado sai. Gaudêncio abre a carta e fica surpreendido.) Que desgraça de criado! 

 

Narrador – Gaudêncio leu a carta, ficou o espantado com o que leu, tomou o chapéu e saiu apressado. E vejam só ouvintes, ou melhor ouçam só ouvintes,  ao meter a carta na algibeira, esta cai sem que ele o pressinta, e cai no meio da sala... Já na cena seguinte Josefina se encontra com Marcelo, o paulista, a menina confessará seu amor pelo fajuto doutor advogado, mas terá uma surpresa sentimental com o fazendeiro caipira paulista que lhe entregará a carta que encontrou no meio da sala, leu e....

 

Josefina , (entrando) — Sr. Marcelo?

Marcelo, (voltando) — Quem me chama? Ah! Senhorita Josefina!

Josefina — O senhor estava aí na sala a me esperar certo? Faz-me o obséquio? A mamãe contou-me o que há pouco passou-se aqui com o senhor.

Marcelo — Pois então, muito estimo... não se preocupe estou indo (Quer sair.)

Josefina, retendo-o — Ouça! Eu não dormiria tranqüila, se soubesse que há no mundo uma pessoa mal comigo... Venho pedir-lhe perdão.

Marcelo — Perdão a mim?

Josefina — Antes de o senhor chegar de S. Paulo eu já conhecia o senhor doutor Gaudêncio e o amava. Assim, não leve a mal que eu o prefira... Perdoa-me?

Marcelo — Menina, eu queria sair de sua casa onde tenho sido muito maltratado, sem dizer uma palavra, para me vingar; mas a sua candura me desarma. Conhece muito bem este tal senhor doutor?

Josefina — Que sotaque da desgraça....(só para plateia) Há dois meses que frequenta a nossa casa, e tem-me parecido bom moço.

Marcelo — E não sabe mais nada sobre ele?

Josefina — O senhor assusta-me!

Marcelo — Vou lhe contar uma história. Há dois anos, um homem, negociante cá no Rio, esteve lá em S. Paulo, aonde foi cobrar uma dívida. Demorou-se oito dias em nossa casa. Eu estava então pelas bandas do Serro nas Minas Gerais. Minha mãe e minha irmã o receberam muito bem, e esse homem pagou a hospitalidade, sabe como? Seduzindo e roubando minha irmã!

Josefina — Oh meu Deus!

Marcelo — Moça e inexperiente, acreditou em suas palavras traiçoeiras e, coitada! Esqueceu-se de mim e esqueceu-se de nossa mãe, e a coitada velha que passa a vida chorando agora.

Josefina — Desgraçada!

Marcelo — Quando eu soube, pus-me a caminho. Quinze dias e  quinze noites andei sem descanso. Cheguei à casa de minha mãe, tomei a sua bênção e continuei a jornada, trazendo por companhia minha espingarda carregada com duas balas. Outros quinze dias caminhei; cheguei ao alto da serra, sem que ninguém me desse informação de minha irmã e do seu roubador. Parei alguns instantes, chorei duras lágrimas. Tirei as balas da espingarda, que comigo guardo (tira da algibeira duas balas, que mostra a Josefina) para quando encontrar o malvado — e voltei a consolar minha mãe.

Josefina — Pobre da sua mãe!

Marcelo — E acabou-se a alegria de nossa casa. Eu às vezes rio-me, mas choro no coração!

Josefina — Depois que está no Rio tem procurado sua irmã?

Marcelo — Tenho! Mas nada! Não sei o nome do sujeito. Quando nós damos hospitalidade a arguém, não indagamos a quem.

Josefina — Oh, desculpe-me se eu fui despertar essa lembrança que o aflige!


Narrador – Neste momento o paulista Marcelo dá a carta a Josefina e diz:

 

Marcelo -  Olha Menina Josefina — Você me renegou, não tem problema, mas leia esta carta e não seja infeliz como a minha desgraçada irmã. Adeus!(Sai.)

 

 

BG - “Lundu de rapariga” com Alcione,

KARLA

 

O que tinha nesta carta? Os pretendentes de Josefina são o encontro com o sarcasmo trazido por Martins Pena em seu teatro. Quem tem dinheiro, não tem cultura! Quem não tem dinheiro, também não tem cultura, mas finge ter. O teatro cômico brasileiro foi na primeira metade do séc. XIX a exposição de um certo glamour cafona do modelo de família brasileira. Mas se quiserem saber o que tinha na carta. Leiam ouvintes, leiam.

TIAGO.

 

Neste último programa de Martins Pena temos uma pequena homenagem ao ator e diretor da companhia de teatro mais representativa de sua época, João Caetano dos Santos. Ator, diretor, com uma biografia pouco conhecida do público brasileiro na atualidade, o jovem intérprete de personagens Shakespereanos, de personagens do teatro francês, foi o primeiro a difundir no Brasil, na corte, no Rio de Janeiro a beleza e a criatividade de nosso teatro.

 

LÍLIAN

 

Do teatro de Gonçalves de Magalhães, Martins Pena e outros, o nosso ator João Caetano exerceu a função de ensaiador e empresário teatral no Rio de Janeiro, abriu espaço para criação de companhias de cena no Brasil e foi inspirador da construção de Teatros por todo o país. Uma época em que o Rio de Janeiro vivia entre as cenas das telas de Debret, os primeiros ranchos de carnaval, o calor infernal da vida praiana carioca, o teatro passava ao exercício de prazer daquela vida social...

 

 

KARLA

 

 

E assim encerramos o QUARTO e último episódio da nossa série: o Teatro de Martins Pena. No próximo mês estaremos na programação da Rádio Eixo, com o Teatro de José de Alencar. Agradecemos em muito seu prestígio e paciência querida e querido ouvinte ouvinte por terem se colocado com atenção no nosso programa EIXOENCENA.

 

LÍLIAN

 

O  programa EIXOENCENA é  parte do projeto RÁDIO TEATRO, OS FUNDADORES DO TEATRO BRASILEIRO E O TEATRO DE BRASÍLIA  realizado com recursos do FUNDO DE APOIO À CULTURA DO DISTRITO FEDERAL e como se diz no bom e velho teatro fiquem bem e

OS TRÊS ATORES JUNTOS: “MERDA PRA TODOS”


A RÁDIO EIXO APRESENTOU EIXOENCENA

 

BG “Mambembe” de Chico Buarque - versão original



4 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Kommentare


bottom of page