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  • Paola Antony

Ellen Oléria

Atualizado: 17 de nov. de 2022



Ellen Oléria nasceu e foi criada em Brasília. Formou-se em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília e tem mais de 20 anos na estrada da música. Leva consigo muitos prêmios, entre eles o do The Voice Brasil.

Ellen tem 5 discos lançados, com repertório brasileiríssimo e muitas participações. Suas apresentações são sempre entusiasmadas. Ellen é como a gente já percebeu abrindo o programa, uma artista sorridente, iluminada, versátil, gentil.

Em 2017, Ellen foi indicada como melhor cantora na categoria Canção Popular, pelo Prêmio da Música Brasileira, por seu disco Afrofuturista.

Ellen Oléria – Eu lancei o disco Afrofuturista em 2015, olha só, já faz 6 anos esse hiato em álbuns, e, de 17 para 18, a gente lançou, com arranjo do Salomão Soares, músico paraibano excepcional e radicado aqui em São Paulo, um desses novinhos fantásticos e, logo na sequência, em 2019, lancei Nuvens no Jardim, que é uma composição do Lino Krizz, o produtor musical que fez a ponte para eu participar do disco do Mano Brown, o disco solo dele. Ele me chamou para participar e acabei cantando em 3 faixas e a gente ficou amigo.

O disco novo está gravado, mas a gente não lançou ainda. Eu tenho umas parcerias com Victor Angeleas e Márcio Marinho para sair esse ano, tenho uma parceria com o GOG e com o Lino Krizz. Há uma outra canção que a gente escreveu, que deve sair esse ano, e uma parceria com a banda O Quadro, de Salvador, que deve sair neste ano também. Gravei um single com meus meninos, Renato Galvão, Caetano Bartolo e Tico, no baixo. As coisas estão bem bonitas e há vários singles para esse ano; estou ansiosa para saírem.

Paola Antony – Ellen, do Afrofuturista para Peça, ou melhor, do Peça, seu primeiro CD, para o Afrofuturista, muita coisa aconteceu, a gente sabe, eu percebo outras experiências, mas como você pode definir esse tempo, o que aconteceu com você musicalmente?

Ellen Oléria – A vida aconteceu, né? Do Peça para o Afrofuturista, acho que a primeira coisa que eu pensei foi a minha maturidade como cantora. Acho que a minha experiência de gravação de um trabalho autoral, no Peça, foi meio traumática. Depois de levantar toda a cozinha, a banda toda gravou e gravou lindo, então eu fiquei sentindo uma pressão muito grande para entrar no estúdio e cantar. Uma insegurança. Acho que quem me viu cantar ao vivo e escuta o Peça sente um abismo entre a minha expressão no palco, na época, e o disco. Eu entendo que são duas linguagens distintas, o palco e o estúdio, mas eu acho muito diferente. Não acho que é ruim, eu amo o disco Peça, mas é muito diferente, é uma outra qualidade, uma outra cor, uma outra qualidade de performance, qualidade no sentido de identidade, de estética.

Chegar ao Afrofuturista, depois de tantos encontros fantásticos que eu tive... Acho que cada nada que eu tive foi uma escola, fui muito feliz com cada músico que encontrei. Pedro Martins é uma figura muito determinante na percepção do meu som e com ele acaba nascendo esse som a que a gente chega no Afrofuturista. Muitas camadas, né? A gente gravou o disco Peça com quatro figuras e algumas participações especiais, mas, no fundamento, a gente tem aquele quarteto: violão, guitarra, baixo, batera. A gente nem tinha um tecladista na época, acho que a gente conversava bem, eu e Rodrigo nas cordas. E, aí, a gente chega de repente ao Afrofuturista com uma série de camadas de som, "trocentos" teclados. Eu acho que, no Afrofuturista, eu cheguei uma plasticidade maior, saí da organicidade do Peça para uma plasticidade.

Nesse meio de caminho, você sabe, cantei o meu repertório autoral, que foi sempre meu carro-chefe, numa época em que toda cantora precisava fazer uns covers para se alinhar na cena. Hoje isso é quase uma regra, todo mundo canta o seu trabalho autoral, mas, na época, a gente precisava fazer essa escola, fazer um especial Tim Maia, um especial Leci Brandão, se não a gente não era apresentada à cena. Mas eu sempre, num contrafluxo, eu acho, sempre cantei minhas músicas. Também incentivada pelos meus parceiros, minha parceira Paula. Acho que isso deu muito certo. Esse caminho que fiz, de cantar meu repertório autoral, me firmou muito o pé. Mas, no meio do caminho, eu me redescubro como intérprete. É um momento em que eu entro nessa superexposição do programa, do The Voice Brasil, e de repente eu estou cantando músicas de outras pessoas. E é muito legal encontrar algumas pessoas que me dizem: "Nossa essa música sua, que você cantou". Tem gente que acha que Zumbi é minha, mas a composição é do Jorge Ben Jor. Eu fico tão feliz, porque é isso, eu acho que atualizar uma música é isso, as pessoas chamam de interpretar como a mimese do real ou como a imitação de algo. As vezes eu acho que essa palavra nem é adequada, porque acho que a gente não interpreta, atualiza, né? Traz para o aqui e o agora. Sílvia Davini dizia muito isso sobre estar no palco como atriz e acho que ela foi muito feliz em dizer isso, na minha percepção.

Paola Antony – Ellen, eu gosto muito da música Forró da Olinta, do Afrofuturista. Conte-me dela.,

Ellen Oléria – Olinta é o nome da minha falecida tia, irmã do meu pai. Quando eu canto lá, em Córrego Rico, falando da mineirada, é esse núcleo, esse povo. Tia Olinta era muito rígida, mas, ao mesmo tempo, muito bagunceira. Eu escrevi esse som um pouco depois do falecimento dela, meu irmão, me lembro, ficou muito comovido. A ideia é essa, fazer um forró, e esse forró ficou meio caribenho, né? Eu o acho bem angolano. O Felipe Viegas, que é o forte arranjador desse som, mandei para ele o disco Os Maiorais, do Bonga, acho que é de 75, um disco duplo. Falei para ele: "Cara, escuta esse som aqui". É um swuingão porrada e acho que Felipe acabou bebendo muito de lá. Essa música vem assim, com essa roupagem e trazendo muito a memória dessa festa na casa do meu pai, ele tocando as coisas depois da reza. Rolava a novena, né? Aí o povo ia rezar. Eu era muito pequena, me lembro de estar na casa da minha avó em Minas e estar voltando para casa com uma romaria que estava passando. O povo chegou na casa para rezar, eu que nunca fui católica, mesmo com essas raízes, me lembro de estar entrando na casa da minha avó, era bem na roça, e a gente ia tropeçando nos sapos, para entrar na casa. Era isso, depois da reza: "Menina, afasta as cadeiras, os bancos, que a poeira vai subir". Tia Zezinha era outra irmã do meu pai, que fazia uns pratos deliciosos, sabe? O povo mineiro faz mesmo.

Paola Antony – Ellen, então podemos considerar que sua vivência musical vem de pequena?

Ellen Oléria – Vem de pequena. Inclusive mencionei meu pai, e algumas pessoas falam: "Poxa, sua mãe não está muito na sua música, né?". Eu digo: "Como não está?". Tudo que eu escrevo passa por essa mulher. Vários versos das minhas músicas nascem de alguma coisa que ela disse. Solta na Vida, por exemplo, é uma música que começa com um atravessamento da minha mãe, que não sei o que foi, eu estava meio desanimada, não consigo me lembrar o que era, mas eu lembro que ela disse assim para mim: "Não, minha filha, levanta sua cabeça, como diria minha mãe de criação, morra de atrevida, não esmorecida". Minha mãe é demais! Essa goianona vem com umas tiradas muito formidáveis. Eu me lembro que, logo que a Sílvia Davini faleceu, eu estava muito arrasada em casa, estava chorando muito, pois a Sílvia foi uma pessoa muito importante na minha vida, para eu me entender como artista no mundo, como cantora também. Eu me lembro da minha mãe chegar e falar: "Não, minha filha, é assim mesmo, respira, deixa ir". Porque, às vezes, a gente chora, querendo que a pessoa fique, né? Mas minha mãe disse: "É assim mesmo, minha filha, a vida da gente é uma vela acessa ao vento". Minha mãe é assim, em qualquer conversa dela, de vez em quando, ela manda uma poesia. Mandala eu escrevi depois de uma conversa minha e dela com a minha tia Antonina. Acho que muito do que eu componho passa pelas mulheres da minha vida, e a primeira delas é minha mãe, a minha irmã. O disco novo tem uma música que eu escrevi com minha irmã, quando eu tinha 13 anos e ela 14, e eu estou gravando agora. Eu falei para ela, "Ó, estou gravando a nossa música lá". E ela, "Que música?" (risos). Eu, Pra falar de Amor. Aí ela falou: "Hum, você arrumou ela?" (risos). Eu: "Arrumei. Está lá, arrumadinha".

Paola Antony – Olha só, que história legal! Que interessante! Há pessoas que são mesmo importantes em nossa vida.

Ellen Oléria – Você veja como são determinantes os meus encontros com essas pessoas incríveis, com essas mulheres maravilhosas. Inclusive, lembrei de uma música que eu gravei com a Vera Verônika, acho que ela estava comemorando 25 anos de carreira e mandou para mim um som chamando As Mulheres, era uma convocação e, às vezes, nessas convocações, a gente tem umas histórias tristes, né? A galera conta muito de um passado de violência. Aí eu falei: "Ah, não quero cantar sobre essas coisas violentas, não. Posso até cantar sangue, mas não vou cantar assim, não". Escrevi um texto falando..., posso cantar um pedacinho? “O sangue que escorria pelas pernas de Teresa não é de morte, nem de violência. O sangue que escorria pelas pernas de Teresa é a correnteza da tenda vermelha. Teresa deixou de parir mais um, pra parir novamente a ela mesma, Teresa deixou de mais um ai, ai, ai, Teresa”.

A entrevista completa de Ellen Oléria para o Cumbuca está em áudio, com uma seleção musical que percorre sua carreira e que pode ser conferida no SoundCloud da Rádio Eixo.



Acesse: https://soundcloud.com/radioeixo/cumbuca-ellen-oleria-1?in=radioeixo/sets/cumbuca



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