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  • Paola Antony

André Gonzales

Atualizado: 2 de nov. de 2022



André Gonzales é conhecido por ser o vocalista da banda Móveis Coloniais de Acaju. Banda de pop rock de Brasília com projeção nacional, que surgiu em 1998 e que, em 2016, após 18 anos de estrada, fez uma pausa por tempo indeterminado. Hoje André segue sua carreira com o projeto Sr. Gonzales Serenata Orquestra e dá início ao Remobília, novo projeto com os integrantes do Móveis Coloniais de Acaju.


André é uma figura muito carismática, frequenta vários espaços de arte e cultura da cidade. Acessível, simpático, criativo e muito voltado para a questão da interação. Sobre isso ele vai nos falar ao longo desse bate-papo no Cumbuca, da Rádio Eixo.


Paola Antony – André, quando foi que você se descobriu artista, que você entendeu que tem esse vozeirão?


André Gonzales – Eu acho que eu descobri agora, sabia? Isso é muito louco, porque eu me envolvi com a música pelo lado social. Eu me envolvi por causa dos meus amigos. A música não fazia parte da minha vida, nem em termos de consumo. Nunca fui um colecionador, por exemplo, mas hoje eu gosto. Gosto de estudar, de ir atrás, de conhecer coisas novas. Engraçado, eu comecei por amizade, e a banda começou por amizade. A banda começou pelo social e era o espaço de que eu gostava. Era engraçado, eu ia para os eventos e passava praticamente o tempo todo falando (risos).

Aí o Leo, que é meu amigo de infância, a gente ia junto, provocou: "Vamos fazer uma banda?". "Bora, mas eu não toco nada". "Você canta". E aí foi.

Eu escuto o primeiro e o segundo disco do Móveis e os acho muito ruins. O primeiro acho melhor que o segundo. O segundo acho horrível, a minha voz, sabe? E aí, no terceiro, eu me encontrei. Gostei muito do resultado do terceiro. Eu acho que estou aprendendo a cantar ainda, e o Sr. Gonzales é o espaço onde de fato comecei a encontrar um lugar.

Nesse tempo, mais que me descobrir um cantor, eu me descobri um “animador”. Interessante é que eu comecei num espaço social de troca com amigos e a banda foi me levando também para esse lugar. Acho que isso foi uma das coisas mais emocionantes que eu vivi, de fato. Levei isso como meu principal papel, a pessoa que ia levantar essa bola de como interagir.


Paola Antony – O que você busca ser como artista? O que você sente estando nesse lugar, no palco, por exemplo?


André Gonzales – Existe um mito sobre o palco, né? A pessoa que sobe no palco, o artista, é endeusado e isso também cria um espaço de poder. Ele é maior do que eu, ele é incrível, ele é perfeito e a gente gostava de descontruir isso. A gente ficava perto: "a gente é igual a vocês, vocês fazem parte do Móveis, vocês são o décimo primeiro integrante". A ideia era sempre de horizontalizar essa relação, mas óbvio que não deixa de existir um espaço de poder, que é natural e, às vezes, bastante prejudicial.

Ainda mais um espaço que, na nossa vivência, por mais que a gente esteja lutando para ser diferente, mas eu sou filho disso, é um espaço extremamente machista e masculino, que é o espaço da música, só se vê homem e esse espaço de poder estraga tudo. De alguma forma, eu sempre ocupei esse espaço, hetero, cis, branco, um grupo só de homens, mas a gente sempre tentava lutar contra esse lugar, principalmente o vertical. As pessoas me conheciam, eu dividia problemas pessoais com várias delas, falar da música, da letra, eu sempre busquei e gosto desse lugar, de intimidade, e, no final, é um lugar também de catarse, de alegria. Interessante, né? Você quebra um mito. Quebrou.


Paola Antony – André, depois do Móveis, outro projeto que também deu o que falar foi o Sr. Gonzalez Serenata Orquestra, em que você também exercita muito esse lado da interação, não é?


André Gonzales – Cara, esse projeto me pegou de jeito. Eu falei, vou fazer um show só para idoso, e depois eu ainda melhorei, não vai ser só para idoso, vai ser para o jovem que acompanha o Móveis levar seu avô, seu pai. Virou de fato um projeto intergeracional. É das coisas que mais me tocam. Inclusive eu estou com dificuldade na pandemia com esse público. Eu lancei um projeto logo no começo da pandemia, que se chama telesserenata, e aí eu fiz, mas comecei a ficar muito mal, não por causa do público, mas da situação. Comecei a chorar, começava a cantar e já chorava. Eu não estava tendo muito equilíbrio para fazer, por isso dei um tempo e espero voltar agora, acho que eu vou voltar.

Mas sobre o projeto, eu comecei com o desafio de interpretar, e a gente começou a tocar várias músicas lentas e a investigar coisas antigas, fazer pesquisa. Tocamos Francisco Alves, a primeira grande canção da rádio, Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda, passamos pelo Orlando Silva, Dolores Duran, Chiquinha Gonzaga, a gente foi em tudo da época.

Começamos a fazer o baile, e a galera mais velha, o público que a gente estava atingindo, virou e falou: "Tá muito lento, tá lento demais". E o que eu percebi disso? Que a minha visão do velho foi preconceituosa. É obvio: é velho, então vamos lá atrás. Não, não é. Eu entendi outra coisa sobre a questão da idade, que hoje há vários conceitos. A gente tem de pensar que a idade é um espaço transitório, não define mais os indivíduos. Uma pessoa com 60, com 70 anos, hoje, muitas vezes, tem mais saúde que um cara de 30, de 40 anos. É um público que a gente tem de aprender a ouvir e a dar valor, porque é uma galera que não tem acolhimento da sociedade e, por isso também, acaba sendo acolhida pelas pessoas erradas. Pessoas certas que estão ouvindo isso, vamos acolher, porque eles são incríveis, incríveis mesmo.


Paola Antony – André, e o projeto novo, Remobília, explica para a gente qual é a viagem dessa vez.


André Gonzales – Ficou polêmico já, até o nome, porque o que aconteceu? No ano passado, houve um movimento para o Móveis voltar a tocar, vários festivais chamando e o grupo começou a se mover para voltar a tocar, mas aí, gente, é um grupo enorme, muitas ideias, cada um com uma vontade e eu pensei o seguinte, eu estou com o Sr. Gonzales, o Esdras está com o projeto instrumental dele, que é incrível, o Beto tinha acabado de lançar o disco solo infantil, que é surreal, Onde o Infinito é Som, e o show, Paola, é incrível! Eu fiz a capa do disco, fiz as animações para o show, O Esdras gravou no disco. No show do Esdras, que aconteceu no ano passado, eu e o Beto tocamos, inclusive o Móveis; o Esdras toca na Sr. Gonzales e, cara, no final das contas, a gente sempre esteve envolvido um no trabalho do outro.

Eu falei o seguinte, a galera não está querendo ouvir Móveis? Por que a gente não pega e faz um projeto onde a gente mostra o que está fazendo? Toca uma música do Sr. Gonzales, toca uma música do Esdras, toca uma música do Beto e toca Móveis. E aí a gente fortalece o que está produzindo no momento e atende a essa demanda de tocar Móveis. A galera falou: "Legal, vamos nessa". Essa era a ideia e por isso se chamava Remobília, aquilo em que o Móveis se transformou.

E aí chegou esse ano, em que a gente ia lançar, tivemos um convite de um festival e a galera falou: "Acho massa, mas vou dar uma sugestão polêmica para vocês. Por que vocês não lançam uma música e fazem o show? Isso tinha um mês, ou menos, que o “corona” tinha chegado. A gente já sabia que ia ser complexo, só não sabia que ia ser tão complexo! A gente pensou, vamos aproveitar e gravar tudo. Duas semanas antes de começar a quarentena em Brasília, a gente trouxe o Beto para cá e gravou tudo, tiramos fotos e conseguimos fechar uma música, que lançamos em abril, escrevemos uma letra baseada no que a gente estava vivendo. A música chama-se Nós.


A entrevista completa de André Gonzales para o Cumbuca está em áudio, com uma seleção musical que percorre sua carreira e que pode ser conferida no SoundCloud da Rádio Eixo.


Acesse: https://soundcloud.com/radioeixo/cumbuca-andre-gonzales?in=radioeixo/sets/cumbuca





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