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  • Paola Antony

GOG



Genival Oliveira Gonçalves , o GOG, é rapper, cantor e escritor. Nasceu em Sobradinho, aqui no DF. É considerado um dos pioneiros do hip-hop brasiliense, um dos rappers mais premiados do hip-hop brasileiro e também o poeta do rap nacional.

Paola Antony – GOG, me conta, para a gente começar essa nossa conversa, como é que você está passando por esse momento surreal?

GOG – Surreal. Eu sempre fui bem independente, bem das entranhas, né? Eu não sou da geração do FAC e o queijo na mão sabe?, talvez isso me defina. Eu sempre fui autogestivo, fui o primeiro rapper do Brasil a ter um selo próprio, em 1993, a Só Balanço, e, desde cedo, vendendo boné, camiseta, fazendo palestra, debate, tocando ali dentro do nosso nicho, daquela coisa pequena, então, isso criou uma estrutura. Ela é quase inabalável, tem os momentos de maré baixa, mas está ativa. Eu percebo, a gente tem de ter empatia, nem todo mundo foi criado nesse ecossistema cultural dessa forma. As pessoas que utilizam o Estado, que vêm no Estado uma parceria, uma das características primeiras do Estado fascista é a diminuição, o aniquilamento do espaço cultural, do pensamento. O diferente é sempre o inimigo, o diferente é algo que pode desestabilizar, que pode acordar pessoas, que pode trazer senso crítico.

Hoje, digamos, há uma segunda geração do rap, que, em alguns casos, é bem mais superficial. Isso facilita "negociações". Por exemplo, jamais, na minha geração, se pensaria em rap de direita, em rap bolsonarista, e nós temos aí grandes artistas, grandes nomes do rap nacional, que declaram posição a isso. Mas a nossa sociedade, a comunidade, a favela, ela é bem tradicional, né? Tendo arroz, feijão, tendo polícia na rua, os ladrões na cadeia, parece que essa química salta aos olhos da comunidade. A favela não é meritocrata, ela só quer uns dias melhores. Quando essa química está estruturada, é uma bomba atômica. Esquerda e direita, a favela não pensa nisso, em quem votar. Essa é uma discussão para frente. As pessoas não notam a repressão, porque já são reprimidas culturalmente e secularmente, então, como é que você vai saber alguma coisa, se você já nasceu inserida nela?

A gente está vivendo uma fase de passar muita vergonha. Ser patriota virou quase idiota. Eu adquiri uns traumas, camisa da seleção brasileira, CBF, estádio de futebol, isso não faz mais parte, não, sabe? Quando eu quero ver futebol, vou ao campinho de terra ver os meninos jogarem. A gente tem de falar que essa disputa, esse sofrimento nosso, estou vendo o pessoal da cultura sofrendo tanto, mas essa é uma disputa do centro, sabe, Paola? E a disputa do centro não é uma disputa nossa. Estou falando do rap, do GOG. A minha disputa é na comunidade. Minha disputa é outra. Para mim não importa quem vai ser o presidente em 2022. Estrategicamente pouco vai mudar. A gente nunca viveu um Estado Democrático de Direito. Para nós um Estado Democrático de Direito sempre foi um estado democrático de direita, primeiro. A direita governou esse país por mais de cinco séculos e é muito complicado quando as pessoas falam que a esquerda acabou com o Brasil, por vinte anos, né, mano? E os caras estão há quantos anos? As pessoas não têm muita noção e não querem discutir sobre uma diferença crucial para se abrir o debate: o que é informação e o que é conhecimento? Informação você chega em determinado endereço, conhecimento você passa a entender como é que aquilo foi construído, como nasceu, o local a que você vai.

Vovó sempre teve com seus ensinamentos, vovó sempre ensinou como cozinhar gostoso, como a lenha demora mais, como acender lenha, mas nós estamos atrás de pós-graduação, de doutorado, todo mundo quer lacrar o primeiro milhão. E essa disputa não é da comunidade, da periferia, a disputa da periferia é por sobrevivência, por vivência, por afeto. São outras pedras, são outros fundamentos, essenciais. Só que, como eu lhe falei, o capitalismo gera quase que essencialmente uma sociedade meritocrática, você tem de vencer, chegar em primeiro lugar e o meu rap, desde cedo, foi focado em falar: mano, e quem perdeu? Quem foi o segundo, terceiro, beleza. Mas e quem chegou em último? Como é que o cara chega, como é que ele mete a cara em casa e responde como é que foi na corrida? Pô, cheguei em último. Como é que foi no sinal? Vendi nada. Trouxe o que para comer? Trouxe nada. Nada, tem nada. Essas pessoas são invisibilizadas, são inviabilizadas. Eu sempre pensei nessas pessoas, elas sempre estiveram na minha mente, sabe?

Só que eu aprendi também, Paola, a não ver a história com a ótica do ódio, tá ligado? Mas ver a história com a leitura da vivência, para você ter experiência hoje. Sempre vai ter o capitão do mato, porque quando a gente fala da branquitude é do pensamento esbranquiçado. Não é da pele branca, não é da pele clara, mas é do pensamento cooptado por um pensamento esbranquiçado. Você pega várias pessoas de pele clara, que estão conosco, só que aí você tem de explicar. Consciência negra somos nós, não adianta meter dread, não, consciência preta é para preto. Você pode ser nosso aliado, você pode embarcar de verdade nessa caminhada antirracista, que é importante, os pretos só não vão fazer revolução, nós precisamos dos brancos enlameados, mas eles têm de entender que não é a mesma coisa. Preto e branco pobres se parecem, mas não são iguais. Se você busca informação, você vai saber que a favela nasce racialmente, ela é um efeito diretamente racial. Quando da abolição da escravatura, quando da abertura, o que abriram primeiro foram os portos para as nações amigas e depois abriram as porteiras para os inimigos, o curral; é muito pesado isso. E aí, o que acontece? Nós fomos morar longe. E o sistema que se colocou no Brasil, sistema bruto, o capitalismo é bruto, pegou e falou assim: para preto não tem vez, mas tem muita pele clara que não tem vez também e vai se enrolar. E onde é que foram morar os peles claras, que não aguentaram? Na favela. Séculos depois, miscigenação, aí, quando você fala em cotas raciais no Brasil, o cara: não, mas eu moro aqui do seu lado, tem de ter para mim também. Por que não? Isso é racismo ao contrário. Mano, você veio para cá por outro problema, eu até apoio a sua causa, as causas sociais, as cotas sociais, mas é outra coisa. Enquanto o Brasil não entender essa dialética, ele vai continuar tendo esse racismo velado.


A entrevista completa de GOG para o Cumbuca está em áudio, com uma seleção musical que percorre sua carreira e que pode ser conferida no SoundCloud da Rádio Eixo.





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