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  • Paola Antony

O Judas em sábado de Aleluia

MARTINS PENA

PROGRAMA 3

 



A RÁDIO EIXO APRESENTA EIXOENCENA


BG -  “Mambembe” Chico Buarque (versão Chico e Roberta Sá)  t


Narrador (rádio novela) – Olá ouvintes, este é o programa EIXOENCENA. Uma série de Rádio-Teatro que fará ao longo deste  ano uma homenagem ao Teatro Brasileiro do séc. XIX e ao Teatro de Brasília. Eu sou KARLA CALASANS e o nosso primeiro autor da série é “MARTINS PENA”.  O elenco do projeto EIXOENCENA é formado por mim PELA ATRIZ  LÍLIAN ALENCAR, PELO ATOR TIAGO DE CARVALHO e grande elenco. Neste TERCEIRO programa temos uma cena da peça o “O Judas em sábado de aleluia”.

 

BG - “Beija Flor” de Ernesto Nazareth  

 

Narrador (rádio novela) – A comédia bufa “O Judas em sábado de aleluia” traz a história do ingênuo apaixonado e preguiçoso Faustino, mero soldado da Guarda Nacional jamais poderia ter a mão da sua amada Maricota prometida e pretendida ao Capitão Ambrósio, este um oficial da Guarda Nacional e superior de Faustino. Numa enrascada dentro da casa da moça e com a chegada do Capitão, Faustino é obrigado a vestir as roupas de um boneco de Judas Iscariotes, que seria malhado na quinta feira santa e fingir-se de boneco para não ser preso e tomar uma coça na cadeia. Na cena a seguir Faustino e Maricota travam o mais exdrúxulo diálogo amoroso e cômico. Faustino, loucamente apaixonado sabe que Maricota é prometida ao Capitão Ambrósio e ele entra dizendo a ela:

  

Faustino  — Maricota meu amor, posso entrar?

Maricota  (voltando-se) — Quem é? Ah, pode entrar.

Faustino, (entrando) — Estava ali de frente na loja do barbeiro, esperando que teu pai saísse para poder ver-te, falar-te, amar-te, adorar-te, e...

Maricota — Deveras!

Faustino — Ainda duvidas? Para quem vivo eu, senão para ti? Quem está sempre presente na minha imaginação? Para quem faço eu todos os sacrifícios?

Maricota — Fale mais baixo, que a mana pode ouvir.

Faustino — A mana! Oh, quem me dera ser tua irmã, para estar sempre contigo! Na mesma sala, na mesma mesa, na mesma...

Maricota, (rindo-se) — Já você começa.

Faustino — E como hei-de acabar sem começar? (Pegando-lhe na mão:) Decididamente, meu amor, não posso viver sem ti... E sem o meu salário por óbvio.

Maricota — Não lhe creio: muitas vezes está sem me aparecer dois dias, sinal que pode viver sem mim; e julgo que pode também viver sem o seu salário, sem seu dinheiro, por que...

Faustino — Impossível!

Maricota — Porque o tenho visto passar muitas vezes por aqui de manhã às onze horas e ao meio-dia, o que prova que falta sofrivelmente no seu emprego, que lhe cortam o ponto e descontam  no ordenado. 

Faustino — Faltar no emprego, eu, o modelo dos empregados? Enganaram-te. Quando lá não vou, é  por estar doente, ou por ter mandado atestado...

Maricota — E hoje que é dia de trabalho, tá fazendo o que aqui?

Faustino — Hoje? Ah, não me fales nisso, que me desespera e alucina! Por tua causa sou a vítima  mais infeliz da Guarda Nacional!

Maricota — Por minha causa?!

Faustino — Sim, sim, por tua causa! O capitão da minha companhia, o mais feroz capitão que tem aparecido no mundo, depois que se inventou a Guarda Nacional, persegue-me, acabrunha-me e assassina-me! Como sabe que eu te amo e que tu me correspondes, não há pirraças e afrontas que não me faça. Todas os meses são dois e três avisos para montar guarda; outros tantos para rondas, manejos, paradas... E desgraçado se lá não vou, ou não pago! Já o meu salário não chega. Roubam-me, roubam-me com as armas na mão! Eu te detesto, capitão infernal, és um tirano, um Gengis-Kan, um Tamerlan!

Agora mesmo está um guarda na porta da repartição à minha espera para prender-me. Mas eu não vou lá, não quero. Tenho dito. Um cidadão é livre... Enquanto não o prendem.

 

 

Narrador (rádio novela) – O diálogo ainda se desenrola, Maricota já não se encanta por Faustino e o usa como um tolo, até que o pobre soldado dá a última cartada com uma declaração de amor. Ouçam Faustino e sua declaração piegas hahahaha, mas profundamente romântica:

 

 

Faustino — Maricota, minha vida, ouve a confissão das tormentas que por ti sofro.

Faustino -  (Declamando) Uma idéia esmagadora, idéia abortada do negro abismo, como o riso do desespero, segue-me por toda a parte! Na rua, na cama, na repartição, nos bailes e mesmo no teatro não me deixa um só instante! Agarrada às minhas orelhas, como o náufrago à tábua de salvação, ouço-a sempre dizer: — Maricota não te ama!

Faustino -  Sacudo a cabeça, arranco as cabelos (faz o que diz) e só consigo desarranjar os cabelos e amarrotar a gravata. (Isto dizendo, tira da bolso um pente, com o qual penteia-se enquanto fala) Isto é o tormento da minha vida, companheiro da minha morte! Cosido na mortalha, pregado no caixão, enterrado na catacumba, fechado na caixinha dos ossos no dia de finados ouvirei ainda essa voz, mas então será furibunda, pavorosa e cadavérica, repetir: — Maricota não te ama!

Faustino  - (Engrossa a voz para dizer estas palavras) E serei o defunto o mais desgraçado! Não te comovem estas pinturas Maricota? Gostou da minha atuação? Não se te arrepiam as carnes?

...

Coro (TRÊS ATORES) – agora Maricota não resiste

 

Narrador – Então Maricota responde

 

Maricota - Já lhe disse que escute Faustino. 


Ora diga-me: não lhe tenho eu dado todas as provas que lhe poderia dar para convencê-lo do meu amor? Não tenho respondido a todas suas cartas? Não estou à janela sempre que passa de manhã para a repartição, e às duas horas quando volta, apesar do sol? Quando tenho alguma flor ao peito, que ma pede, não te dou? Que mais quer? São poucas essas provas de verdadeiro amor? Assim é que me paga tantas finezas? Eu é que me deveria queixar...

Faustino — Tu?

Maricota — Eu, sim! Estou desenganada. (Finge que chora) Fui bem desgraçada em dar meu coração a um ingrato!

Faustino (enternecido) — Maricota!

Maricota — Se eu pudesse arrancar do peito esta paixão...

Faustino — Maricota!

Maricota – Fico vulnerável diante de ti! 

Faustino — Maricota!

Maricota – Não há como te perdoar!

Faustino — Maricota eis-me a teus pés! (Ajoelha-se, e enquanto fala, Maricota rise, sem que ele veja) Necessito de toda a tua bondade para ser perdoado!

Maricota — Deixe-me.

Faustino — Queres que morra a teus pés?

Maricota (assustada) — Quem será? (Faustino conserva-se de joelhos)

 

Narrador – neste momento chega o noivo de Maricota o Capitão Ambrósio

 

Capitão (TIAGO) (na escada, dentro) — Senhora  Maricota, dá licença? Já vou entrar certo?

Maricota (assustada) — Faustino, é o Capitão Ambrósio! Vá-se embora, vá-se embora! Vai vai vai...

 

Narrador - Faustino corre para dentro da casa pronto para perder a cabeça e só tem uma coisa a fazer tomar o lugar do boneco do Judas feito pelas crianças para ser surrado e malhado no dia da traição, naquela semana santa...

 

BG - “Beija Flor” de Ernesto Nazareth

 

LÍLIAN

QUAL será o desenrolar desta peça, da personagem Faustino na posição do boneco de Judas Iscariotes? Ele, um mero soldado descobrirá as personalidades falsas e os piores comportamentos da sociedade, e na sala da casa desta família o que ocorrerá? O que ocorrerá?  Leiam ouvintes leiammmmmmm!!!!!!!!!!!

 

TIAGO

 

A música ouvida por vocês no início da cena era uma polca do compositor brasileiro Ernesto Nazareth chamada

“Beija Flor”. A polca e o minueto eram os dois estilos de música e dança mais populares do Brasil do séc. XIX,  menos clássicos que a valsa formaram a raiz da nossa música popular.

 

KARLA

A famosa malhação do Judas era uma prática vinda das festas da Península Ibérica em que para demonstrar uma educação de amor e veneração ao Cristo se fazia um molde de pano do traidor e davam às crianças porretes para bater no boneco até que o mesmo ficasse descomposto. Imagina que ensinamentos pacíficos para formação destes pequenos cristãos na sociedade brasileira!!!!!!!!!

 

LÍLIAN

E assim encerramos o TERCEIRO episódio da nossa série: o Teatro de Martins Pena. Na próxima semana teremos uma cena da peça “O DILETANTE”. Agradecemos em muito seu prestígio e paciência querida e querido ouvinte por terem se colocado com atenção no nosso programa EIXOENCENA.

 

KARLA

O  programa EIXOENCENA é  parte do projeto RÁDIO TEATRO, OS FUNDADORES DO TEATRO BRASILEIRO E O TEATRO DE BRASÍLIA  realizado com recursos do FUNDO DE APOIO À CULTURA DO DISTRITO FEDERAL e como se diz no bom e velho teatro fiquem bem e

OS TRÊS ATORES JUNTOS: “MERDA PRA TODOS”

 

A RÁDIO EIXO APRESENTOU EIXOENCENA


BG Volta “Mambembe” de Chico Buarque na versão original para encerrar o programa


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