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  • Paola Antony

Desmatar o Cerrado para preservar a Amazônia. Por quê?

“Enquanto continuarmos com a narrativa de que podemos desmatar o Cerrado para conservar a Amazônia, e enquanto o Cerrado for sacrificado no altar da Amazônia, não teremos Cerrado protegido”.


Narayana Teles



O Cerrado é a savana com a maior diversidade arbórea do mundo, um lugar de muitas espécies. A biodiversidade do Cerrado surpreende, só fica diminuída porque estamos em um país imenso com outros biomas também biodiversos. O Cerrado é um bioma que está no mesmo país da Amazônia, a maior floresta tropical do planeta, está no mesmo país da Mata Atlântica, que é um ambiente com uma quantidade enorme de espécies endêmicas, está no mesmo país do Pantanal, a maior planície úmida do mundo. Ao invés de somar a biodiversidade, conserva-se um bioma em detrimento do outro. Dessa forma, o Cerrado acaba perdendo em apelo para a conservação diante de uma floresta tropical como a Amazônia. É válido lembrar que o Cerrado não é patrimônio nacional como a Mata Atlântica, o Pantanal e a Amazônia.


Mas, o que significa ser patrimônio nacional? Significa, segundo a bióloga e ativista socioambiental Nurit Bensusan, que você está sinalizando a importância desses biomas para a população do país, para a sociedade, para todo o mundo. É um diferencial ser patrimônio nacional, pois um bioma foi escolhido em detrimento de outros, uma maneira de sinalizar que os biomas que não são patrimônio nacional, como o Pampa, o Cerrado e a Caatinga são, hoje, menos importantes. Embora o Cerrado exerça um papel fundamental nos recursos hídricos do Brasil, por isso é chamado berço das águas, ele é um bioma posto de lado, não valorizado, sua conservação não é considerada relevante.  Para Nurit, o agronegócio no Brasil tem sido pouco responsável em relação às questões ambientais, então avança sobre essas áreas naturais com uma voracidade enorme e o resultado disso é o desmatamento de uma área atrás da outra, muitas sendo abandonadas, um processo sem fim.


De acordo com a bióloga, o desmatamento do Cerrado está em números maiores que o da Amazônia, é um cenário ruim, de terra arrasada, e faz a seguinte declaração: “Existe essa ideia de que no Cerrado as pessoas podem ainda desmatar uma área muito grande legalmente porque a reserva legal no Cerrado não é como na Amazônia. Você tem um monte de Cerrado que está dentro de propriedades privadas e que pode ser legalmente desmatado, o que é um desastre gigantesco, você tem ao mesmo tempo uma quantidade enorme de áreas degradadas que não são recuperadas porque é mais fácil arranjar uma outra área de Cerrado e desmatar”.


Para além de tudo isso, Nurit Bensusan ressalta a sociobiodiversidade do Cerrado, existente nos povos de comunidades tradicionais e povos indígenas, uma diversidade cultural imensa, que talvez seja a maior riqueza deste país, pois são muitas as formas de fazer coisas diferentes, de construir histórias, modos de estar no mundo, paisagens, espécies, as interações entre esse bioma e essas pessoas, pontua. Essa diversidade cultural também se perde à medida em que se desmata o Cerrado. É uma perda em várias dimensões. Perde-se a biodiversidade e a diversidade sociocultural, indispensáveis para o Brasil. Toda a resiliência que precisamos, já que estamos desmatando tudo e o mundo está ficando muito instável em relação ao clima, o que temos realmente de possibilidade de futuro é a resiliência desses povos, afirma a ativista. E, complementa, é com esses povos que a gente precisa aprender e contar para poder viver nesse mundo em transformação.


Nurit cita algumas medidas que podem ser adotadas na proteção ao Cerrado, como a existência de mais áreas de conservação, tipo unidades de conservação para uma menor possibilidade de desmatamento legal; um número maior de territórios protegidos que assegurassem os povos de comunidades tradicionais, hoje, temos as modalidades que são as reservas extrativistas, as reservas de desenvolvimento sustentável, poderiam ser essas modalidades ou conceber novas; sermos mais estrito na fiscalização. Contudo, existe algo a ser feito e que dele depende todas as medidas, aqui, citadas, que é a questão da narrativa sobre o Cerrado. Para Nurit, enquanto continuarmos com a narrativa de que podemos desmatar o Cerrado para conservar a Amazônia e enquanto o Cerrado for sacrificado no altar da Amazônia, não teremos Cerrado protegido.


Mudar a narrativa sobre o Cerrado é muito difícil. As pessoas que trabalham com o Cerrado estão tentando fazer isso há anos, que é colocá-lo em um outro patamar. Mostrar que ele é um bioma muito importante também. Nurit considera inaceitável a destruição do Cerrado pelo agronegócio, pois destrói o bioma, contamina-o com um contingente enorme de agrotóxicos, acaba com o solo, contamina as águas, piora a situação climática, destrói a biodiversidade e o mundo dos povos de comunidades tradicionais. Algo que ela chama de ética da inaceitabilidade:

“Quando um setor econômico avança pra cima do Cerrado e destrói tudo, isso não é a garantia de um futuro melhor, pelo contrário, é uma situação que coloca em cheque o nosso futuro. Nosso futuro depende do Cerrado, depende da biodiversidade, depende da resiliência climática e depende muito desses povos de comunidades tradicionais, portanto, se não conseguirmos emplacar essa narrativa, se ela não conseguir substituir essa ideia de que o Cerrado tá aí para ser desmatado, que para proteger a Amazônia é preciso desmatar o Cerrado, quando não entendermos que é possível fazer um outro tipo de agricultura, que é possível não largar simplesmente para trás as terras degradadas, que as pessoas têm que ter compromisso com esse ambiente porque o compromisso com o meio ambiente é um compromisso para a vida de todos no planeta, enquanto isso não acontecer, a luta pela conservação do Cerrado será uma luta inglória”.


Uma boa parte do que temos conservado nos biomas do Brasil deve-se aos povos de comunidades tradicionais e aos povos indígenas, isso vale para a Amazônia e para o Cerrado. De acordo com Nurit, a relação que essas pessoas têm com os seus territórios é uma relação muito diferente da que temos com a terra, na qual achamos que a terra é intercambiável, tira daqui, desmata ali, não tem uma conexão com a paisagem, com o conceito de território: “aquele lugar com aquela paisagem, com aquela diversidade biológica, com aquelas interações da tua cultura e daquela paisagem física que forma o território”. Não há dúvidas de que a presença desses povos está no cerne em todas as áreas conservadas neste país. Quando você olha, por exemplo, o mapa de Rondônia, você vai ver que onde tem alguma coisa de pé é o que virou unidade de conservação (em muitas dessas unidades de conservação tinha gente também, povos de comunidades tradicionais) e as terras indígenas.


Os povos de comunidades tradicionais e os povos indígenas são resilientes porque muitos deles já passaram pelo fim do mundo, comenta Nurit, que também é escritora e mestra em Ecologia. Eles já foram desalojados. O mundo deles já se desfez e ainda sim eles conseguem encontrar maneiras de viver, maneiras de reinventar sua forma de estar no mundo, uma coisa que, definitivamente, a gente vai precisar fazer em breve, alerta. “O tipo de interação que eles têm com a natureza, que não é essa interação que a gente tem, que se vê como uma parte fora da natureza, a própria ideia de natureza é uma coisa fora da gente, quase uma contraposição, é algo que não existe para essas comunidades, para esses povos de comunidades tradicionais e indígenas, que fazem parte integrante disso, para usar a expressão de Ailton Krenak: ‘numa dança cósmica’, numa troca contínua com o ambiente, mostrando que a nossa compreensão do que se passa nos ambientes naturais é muito incipiente, a nossa ciência não consegue ainda capturar, entender as diversas dimensões desses ambientes, coisas que essas comunidades percebem de uma outra maneira”.


E, conclui, esse conhecimento, essa resiliência, essa maneira de lidar com esses ambientes faz com que eles sejam um depósito de esperança para um futuro que cada vez mais aparenta ser muito distópico.


A Rádio Eixo conta com o fomento do FAC - Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal


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